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ADMIRÁVEL

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Doutas e distintas, caminham pelo campus d’uma grande universidade duas senhoras. A mais jovem, estrangeira, era reconhecida em toda parte como escritora e conferencista de enorme influência. Não obstante, fulgura em sua face uma beleza rara, tranquila, que só não intimida quem d’ela se aproxima em vista de suas maneiras sempre muito afáveis e receptivas. Era mulher que fizera do conhecimento seu único interesse. Viajava ultimamente por vários países à pedido de seus editores na divulgação de suas mais recentes publicações. Sua companhia, uma senhora de carreira acadêmica, se impressionara vividamente com sua obra e a acompanhara em concorridos eventos de leitura de excertos e apresentações da jovem, onde, por via de regra, seu pensamento causava grande interesse. Intelectual muito respeitada, sua obra a precedia e lhe abria muitas portas.

Após alguns minutos de silenciosa caminhada, disse a dona à moça:

— “Eu chego a ter certa pena de ti… És d’uma estirpe de mulheres admiráveis, tanto por esta deslumbrante mirada ultramarina, quanto pelo brilho inteligente que tuas pupilas contêm. Por ti, homens de valor se matam e mulheres de classe se arruínam. Tens o amor, a paixão e o desejo sublimados em teus lábios carmim. Sim, quando se movem uma voz maviosa destila saberes cheios de argúcia intelectual honestamente curiosa. És avassaladora! Tu cativas a emoção alheia com uma facilidade que te há-de custar muito caro: Impossível espalhar tanta feminilidade sem causar grandes amores… Ou tragédias!…” — A moça respondeu à dona:

— “Descreves precisamente minha condição. Sim, mais de uma vez desfiz amizades que desafortunadamente se revelaram amorosas. Eu juro que não faço por mal, ou melhor, por bem… Aliás, nada faço! Mal ou bem querida, o facto é que não posso me dar ao luxo de simplesmente conviver. Não, todos querem algo mais! Sem querer soar pedante, penso que seria mais corretamente compreendida se não despertasse tanta admiração…

A elegante senhora olhou demoradamente para a rapariga que tinha diante de si… Era impossível lhe ignorar a presença. Seu garbo distingue imediatamente. Vestia-se com apuro e cuidado. Mas, quem lhe fugisse do brilho dos olhos e lhe evitasse o adorável sorriso, decerto capitularia com sua insuperável conversação. Já a haviam visto sustentar diálogos com filósofos áridos e artistas pedantes com igual desenvoltura. Tinha um genuíno interesse pelo ser humano e seus arrazoados… Qualquer um se sentiria importante com sua atenção franca e paciente. A dona lhe falou:

— “Como te lamento, coitadinha! És demasiado doce para um mundo de ávidos. Despertas senão cupidez e inveja aonde quer que vás…Todos te hão-de querer um pedaço e, quando tiverem o mínimo que seja, não suportarão viver sem teu mel! Que infelicidade seres tão admirável!”

Ruidosos, os homens se reuniam ao redor do café. Fumavam e tagarelavam animadamente acerca das misérias dos políticos mundo afora. Ideavam sistemas, ordenavam finanças e empreendiam impérios… Mas bastou a senhora e a bela jovem passarem diante de seus olhos, eles se calaram. E elas sabiam por quê! A jovem parou e lhes perguntou interessada sobre as novidades do dia. O mais velho se saiu com galanteio:

— “E haverá novidade capaz de eclipsar vossas conquistas, senhorita? O que são as quedas de gabinetes ministeriais ou ânsias das bolsas valores diante de vossos famosos debates? Ouve-se por toda parte que os escritos que publicais arrebatam seguidores fiéis” — e arrematou — “Só não sois mais bela do que sábia!”

A moça agradeceu, sorrindo:

— “Quão lisonjeiras palavras, meu senhor. Se vos apraz, a vós e a vós-outros, gostaria de participar de vossa conversa, trazendo o tema d’um ensaio em que estou trabalhando.” — ao que este se interessou: — “E sobre o que seria o ensaio, senhorita?” — E ela respondeu:

— “Sobre o Poder!” — os presentes s’entreolharam. Ela continuou: — “Sim dos peculiares esforços que fazem com alguém mande e outros obedeçam” — Um terceiro se adiantou:

— “Oras, quem senão os deuses que governam o Fado poderá saber porque um é elevado aos palácios ao passo que os demais se curvam diante?” — O mais velho riu e atalhou:

— “Não nos envergonhe, meu caro, evidente que tão célebre pensadora está muitos passos à frente de velhacos como nós! Em todo caso, senhorita, afora os deuses e o acaso, que elementos ou entes sorriem ao poderoso para d’ele fazer um soberano?” — Ao que ela disse:

— “Decerto ser bem sucedido. Não há nada que as pessoas amem mais do que o sucesso. Aquele que provado sucessivamente pelas circunstâncias consegue prevalecer, alcança a atenção e admiração dos que o cercam. De maneira geral, aquele que se destaca entre os demais se caracteriza pelo bem, ou melhor dizendo, de ser bem-nascido, bem-educado e bem-sucedido. É pelo bem que se acumula bens!” — Um dos presentes, o mais impressionado, lhe objetou, porém:

— “Mas, quanto mais alto se elevam, de mais alto caem…” — Ela continuou:

— “Essa é com certeza outra singularidade do poderoso, a saber, o destemor face o fracasso. Somente acerta ou erra quem tenta; somente conquista quem arrisca.” — O rapaz insistiu:

— “E somente desce quem sobe… Sem embargo, há aqueles que se firmam no topo por decênios e mesmo quando saem de cena — alguns ostracizados até! — deixam, a despeito de quem o combata, um legado. Esses são chamados de estadistas, líderes, timoneiros… Alçados ao nível de lendas, mesmo seus erros são relativizados, ao passo que seus feitos continuamente celebrados.” — O rapaz se calou subitamente, como se uma ideia o houvesse perturbado e lhe parecera melhor não compartilhá-la.

— “E isso vos parece obra do mérito ou do acaso?” — espevitou a moça — “Ambos, talvez… O poder é um misto de sorte e ousadia, eu penso. — O mais velho riu: — “Sorte? Quanto mais trabalho, mais sorte tenho!” — e completou: — “O sucesso do homem público que chega ao Poder e n’ele se mantém é fruto, sobretudo, de sua perseverança. Só se torna um prócer o animal político que concilia interesses e arbitra conflitos. Tem-de respirar política vinte e quatro horas por dia! Já vi muitos homens e mulheres excepcionais actuando tanto no Parlamento quanto no Governo. — todos os olhos se voltaram para a bela autora e esperavam sua opinião. Ela sorriu e os fuzilou com sua famosa mirada azul:

— “As circunstâncias testam continuamente a pessoa pública. Evidente que há uma ciência da boa administração a evoluir desde que o mundo é mundo. Não basta dizer o que os outros querem ouvir. Há-que se ter clareza de que transformações se pretende fazer na sociedade e na condução da coisa pública. Quando o plano do político e a percepção do povo se alinham, um ciclo de renovação contínua do pacto social estabiliza a nação para que haja esforços coordenados para se avançar nas questões consideradas essenciais para o bem comum. Em suma, bons governantes são aqueles que são mais sensíveis às necessidades dos governados do que a seus projetos pessoais. Uma pessoa pública deveria ficar mais preocupada em promover acções que respondam às questões colocadas pela sociedade do que com o culto à sua personalidade. Mitos e ídolos têm em comum a sobrenaturalidade, isto é, não são d’este mundo. Desejar ser governado por santos ou heróis é ignorar a humanidade do poder”. — a senhora que a acompanhava desde o início não pode de furtar a um comentário:

— “Isso é desalentador, minha querida! Se não forem pessoas superiores, com que temeridade deixamos na mãos cobiçosas d’estes próceres o destino de nossa sociedade? Reconheço em ti, por exemplo, a grandeza dos que merecem a confiança dos demais. Penso que se vivêssemos n’um mundo justo, tu serias alçada às mais altas posições do Estado! Descreveste homens cheios de bens como prováveis candidatos a tais postos… No entanto, tuas próprias obras e influência te fazem sobressair entre legiões de líderes incapazes de inspirar senão repulsa ou comiseração, És admirável! — todos os presentes se adiantaram em concordar — reúnes tantas qualidades em teus postulados que temos a ilusão de que tão claro pensar seja ditado diretamente d’um oráculo. — o mais velho, cerimoniosamente, fez coro àquele panegírico:

— “Deveras, quem discordará de vós, senhora, após presenciarmos todos a sede de saber de vossa pupila se transformando ao longo dos últimos anos em obras seminais e colaborações auspiciosas nos empreendimentos notórios? O debate incansável e honesto que protagonizais quotidianamente nos privilegia tão-só em d’ele participar. Aqui mesmo, sem que nos apercebêssemos, transformastes as pilhérias de nossa conversação ociosa em argumentos dignos de atenção. Só não me surpreendo mais por ter me acostumado a ver vos transformar tantas vezes o pó do senso comum no ouro da lógica fundamentada. Ninguém perde em escutar-vos e, sobretudo, em ler-vos!”

— “O senhor m’encabula com deferências que me ultrapassam.” — agradeceu a moça — “Só espero que meu ensaio seja digno de tanta boa-vontade quanto esta que m’expressais.” — e voltando-se para sua amiga: — “Tua amizade, minha querida, faz com que me vejas mais influente do que de facto sou… Esforço-me, deveras, em ocupar espaços de discussão, espalhando escritos às mais diferentes publicações, antes com a teimosia dos insistentes do que com a sobriedade dos pensadores argutos. Conheci muitos excepcionais, aliás, que me servem de balizadores imprescindíveis para que meus escritos ousem as contribuições que se arvoram.. No mais, entre amigos é sempre mais suave a interpelação para que se construir os argumentos d’um conjunto de ideias. Só me resta em meu esforço para compreender as questões d’este mundo lançar luzes cada vez mais bem orientadas sobre o estado de coisas que nos mantém ordenados n’uma coletividade. Pretendo escrever mais amiúde sobre esse misterioso liame que reúne os indivíduos em torno de regras e normas, constrangendo-os a abrir mão de liberdades de sua natureza egocentrada e se submeterem ao bem comum. Deixo os senhores com vossos assuntos agradecida pelas gentilezas!” — e despediu-se d’aquele grupo.

A dona e a jovem continuaram sua caminhada pelo campus.

(continua …)

Betim — 26 10 2019

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Ricardo CUNHA
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Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar. https://medium.com/@arqt.ricardoc

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