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VESTE

VESTE

Ela veste-se depressa

Pega os sapatos, deixa cair o batom

Nem vê que o documento ficou na escrivaninha

Pega uma roupa qualquer

Calça jeans, casaco e sapato fechado

Sai correndo

 

Ela aperta o botão rápido

Frenética são as batidas do coração

Finalmente o barulho do elevador

As portas se abrem e ela para

 

Olha pra dentro

Engole seco

E entra

No ambiente fechado

Três caras encostados

 

Ela olha pra baixo

Sente-se nua como a vinte minutos

Observada

Os segundos até o térreo se arrastam

 

Cada um parece ser um infinito

E ela tenta não se mexer

A respiração funda

Controlada

Imóvel

 

Lembra que nunca acreditou em muita coisa

Nem teve alguma religião

Mas lembra de quando aconteceu

Quando rezou pela primeira vez

Engole seco

 

A garganta parece cheia de espinhos

Os olhos ficaram turvos

Nem lembra mais como respirar

Pede pra quem ouvir

 

Que os segundos logo passem

Que as portas se abram

E ela possa correr

Ou ao menos se mover

 

Que se isso não acontecer

E o elevador parar ali

Que os cabos de sustentação se rompam

E que ela ao menos tenha uma rápida morte

 

O coração acelerado

A respiração pesada

Os olhos cheios de lágrimas

O barulho chegou ao seus ouvidos

As portas do elevador se abriram

 

#Poesia #Concurso #Eternizarte #Machismo #Sociedade #Feminismo 

EternizArte
Théo Andrey
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Escritor, artista e trans

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