[ editar artigo]

Vermelho

Vermelho

Naquela sessão ela chegaria mais intensa, como se possível, para ela. "Preciso falar do filho que perdi". Aquela dor era intensa. Em segundos estávamos na cena: pernas pesadas, sangue no divã, aborto, vermelho. Angelo, ela diz em tom alto: estou sentindo tudo de novo. Sinta! Sinta e fale! Deixe tudo sair. Choro sentido. Após reviver a sua dor, derramá-la sobre o divã, ela se lembra dos filhos vivos. Retoca o batom, vermelho, seca os olhos. Então, são dois. Um é meu companheiro, o outro meu desafio. Meu filho companheiro nasceu com o pezinho torto. Talvez esse fato nos manteve ainda mais companheiros. Quando desentortou, começou a caminhar sem mim, senti, tive medo de vê-lo cair, tentei segurá-lo, mas ele já era dele. Meu filho desafio é meu espelho. Sua cor? Vermelho. Minha cor? Vermelho. Meu pequeno amado filho- espelhinho, que reflete meus desejos e instintos. As vezes, perco toda a paciência com tamanha inteligência e audácia. Como se parece comigo! Isso é ótimo, e péssimo. Sinto nele o filho que perdi. Sentir assim é tão contraditório. É como se enxergasse nele o vermelho do meu batom, do seu coraçãozinho lindo, e do sangue perdido. Todos vieram de mim, do meu ventre intenso, das paixões que hora ardentes, hora serenas, fizeram-me amada. Sou o centro, a terra, o vento, o fogo e as cachoeiras na vida deles. Meus filhos, meus homens, meu passado. Tudo tão vermelho que, hora ou outra, perco-me de mim mesma, em busca de outros tons, outras cores, tons pastéis, ainda inexistentes em meu universo. As vezes, me acho linda, deeesssluuumbraaante. As vezes me escondo por traz de fotos, cenas e sorrisos parecendo-me deslumbrante. Natural né? Isso me faz mais que mãe, mulher! Ando sumida da terapia, retocando a maquiagem. Um dia volto. Sim! Quem sabe nesse inverno de tardes avermelhadas. Que venham novas sessões, para além do vermelho, para ver-melho(r).

Ler conteúdo completo
Indicados para você