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VERDADE ENCOBERTA

VERDADE ENCOBERTA

The-Anatomy-Lesson-of-Dr.-Nicolaes-Tulp

VERDADE ENCOBERTA

 
Ouço a limalha novamente, espero mais um pouco e vejo que uma carruagem se aproxima muito rápido. Saio pelos fundos do corredor e vou até a sala escura, abro o armário e fico apenas a esperar o movimento seguinte.
Na mesa, apenas um pano branco estendido, mas muito volumoso. Chegaram, escuto seus passos e sinto o seu cheiro, forte infecto de álcool misturado com um silêncio profundo de narcisismo intelectual. Ouço então o ranger de outras portas, estremeço ao saber de sua intenção juntamente com suas passadas de sapatos envernizados, tão estupidamente secos que, ao menor contato com o chão, fazem ouriçar meus pelos.
Hoje eles vieram em mais são, ao todo, nove elementos apenas se entreolhavam com suas barbas e conversavam por sinais.
Puxam-lhe o lençol, na horizontal fidalgo, parece-me que vai esbugalhar os olhos e sua língua romper o silêncio, mas está mais uma vez mumificado. Um lençol branco cobra-lhe as partes, enquanto alguns pescoços se esguicham, ora a curiosidade, ora o cheiro de formol parece que os fazem levitar. Apenas um respiro se ouve, atentos ao brilho da luz infiltrada.
Eviscerados ficaremos desses olhos petrificados pela curiosidade alheia, ressarcidos pelo momento efervescente. O Barbudo finca-lhe na carne sua mais nova inquisição. Com tamanho afinco corta-lhe, o psoas, o músculo que o sustenta extravasando uma artéria. Fidalgo morreu engasgado com anel de ouro, roubado de sua concubina. Seu título putativo saiu pela cloaca, percebem sua nobre intenção, ao abrir-lhe a carne, arranca-lhe das vísceras seu ouro envermelhado, esquecendo-se que alguns de seus súditos apenas se entreolhavam. Fidalgo, agora sem anel esguicha. Eu no armário desmaio tornando-me o foco da atenção.

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