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Vaudeville no caixote-mundo

 

Se três bestas fossem colocadas num caixote e delas pudessem definir padrões da vida que, dentro desse caixote, elevasse o nível do que chamamos de realidade... O mundo seria assim:

A primeira besta montaria num vivaz cavalo branco e , enquanto fica presente no espetáculo, apenas lança suas mãos amplas ao modelo da extravagância – colocando-se num modus operandi à moda de Fausto - ; esta seria observada pela plateia na qual uma boa parte se inspiraria , admiraria, na performasse exímia e logo julgariam que o excesso tem vida dentro de seus respectivos padrões de desejos. Aqueles que lançaram mãos ambiciosas à grandeza , prontamente foram engolidos pela própria fome avara ; estes ficaram , por assim dizer , loucos e cegos quando , em algum momento, se sentassem frente a uma mesa de jantar imensa e bem posta , mas à medida que observam ávidos para todo o banquete , percebem que nada mais pode saciá-los e que tudo o que enfiavam goela abaixo se transformava em serragem em seus estômagos – no final apenas digeriam amargas consequências e até mesmo em grandes orgias apenas tinham , no ápice , um gozo insatisfeito.

A segunda besta , um pouco mais confiante já por via de que a primeira fracassara miseravelmente , ao invés da montaria de um exuberante cavalo decidiu montar-se numa mula velha e tísica ; esta diminuiu o teor do ímpeto e , ao se apresentar diante da plateia decepcionada com a primeira besta, argumentou que o melhor caminho é sempre buscar o meio termo , justificando que os excessos apenas viram sobras . Esta recebeu um título de nobreza, com uma coroa repleta de louros, e uma insígnia cravada com “Bom senso”; uma outra grande parte da plateia levantou-se. “Bravo!”, eles disseram. Aplaudiram encantados por tudo aquilo que lhes encheram os olhos. Aqueles que lançaram mãos trêmulas na busca sempre do meio termo , logo notaram que o tempo passou e , ao abreviar suas esquisitices, ao afogar seus desejos mais íntimos, ao utilizar do cetro moral que condena todos os pecados incessantemente, ao nunca ousar , de tanto buscar o meio, por assim dizer, médio , por via do equilíbrio , se viram em seus reflexos criaturas médias e com certas farpas oriundas dos abortos de suas próprias vontades , apenas foram ofuscados pelo brio alheio e afogados em sua própria mediocridade.

A terceira besta, e a de mais difícil apresentação, foi aquela que já havia chegado vaiada pela plateia; esta pousava suavemente seus pés no chão, sem nenhuma montaria, e apenas gritou doente que nada daquilo que suas outras irmãs apresentaram valia à pena. Argumentou a todos para que vivessem sempre com pouco e se contentassem sempre com pouco , pois assim evitariam se ofuscar ou se frustrar ou desgostar de tudo A plateia ficara horrorizada com tudo o que foi dito e logo insatisfeitos começaram a se agitar , crescendo duma maneira o desprazer de  ouvir as palavras da terceira besta que desceram furiosos destruindo todo o picadeiro , até que o dono do circo – segurando seu chicote e o banquinho de jacarandá – veio na tentativa de apaziguar toda a situação. Naquele momento ele disse que todos poderiam pegar, cada um, pedaços das três bestas, e, ao se alimentar das pequenas verdades que cada uma trazia, tomassem um rumo ao norte de suas vidas. De repente todos se puseram a arrancar os pedaços das criaturas, brutalmente, com tamanha veemência que, simplesmente, quando notaram, havia apenas os restos dos trajes e manchas de sangue espalhadas pela terra prensada duramente no chão... Por instinto, ainda estavam todos insaciáveis; tudo se elevou numa tensão tão grande que se puseram rapidamente a consumir todo o circo.

Ao final da noite todos voltaram para suas casas, crentes que estavam imunes de tudo e completos por dentro... E seus ares completos logo cuidaram de criar um novo mundo, um mundo no qual pudesse haver mais possibilidades...Assim passaram-se eras.

Certa manhã todos acordaram e, com certo contentamento, sorriram. Há muita esperança nesse mundo de muitas possibilidades, mas parecem que ainda estamos todos lascados. Seguiam livremente até que todos começaram a esvaziar as ruas e, por algum motivo, entraram, um a um, para suas casas.

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