[ editar artigo]

Uma tarde movimentada... - Crônicas do Bananil


Estavam sentados no meio fio da calçada: Lulinha, Peixinho e Façanha. Estavam os meninos discutindo assuntos muito sérios:

- Ei, tu viu o que o maluco do presidente disse ontem? - perguntou Façanha a Peixinho.
- Não. O que foi de novo? Aquele otário só fala besteira! O Pantanal tá pegando fogo e ele não tá nem aí. 'Fia' da puta! - responde Peixinho
- Meu pai gosta dele. Já viu? - diz Lulinha enfiando o dedo no nariz.
- Para com isso, seboso! - fala Façanha.
- ECA! É um seboso mesmo! - diz, fazendo cara de nojo, Peixinho.
- Rê-rê-rê... Quer uma 'catotinha' aí? - com a meleca na ponta do dedo indicador, Lulinha debocha e tenta sujar os amigos.
- Sai, otário! Seboso! - irrita-se Peixinho.
- VÁ! ME SUJE QUE VOCÊ VAI VER! - grita Façanha com o punho cerrado e ameaçando socar Peixinho.
Ri até ficar vermelho, Lulinha mangando deles.
- Vocês viram Manteiguinha doido ontem? Ele 'arrochou' pedras nos 'vrido' do banco. Tava mais doido do que já é! - contou Lulinha.
- Rapaz, eu soube. Mas como foi? - perguntou Façanha.
- Oxi? Aaah, foi por isso que eu vi uns pedacinhos de vidro na rua em frente à entrada do banco quando eu tava vindo do colégio. - comenta Peixinho.
- Ele tava na fila pra receber o 'diêro', aí Seu Bidu Guarda disse que não era o dia dele receber não. Aí ele começou a se azoar e se tremer de raiva. Aí saiu da fila brabo! Começou a gritar com Bidu e chamar palavrão com ele. - de pé, encenando, falou Lulinha, ajeitando a bermuda surrada preta e grande para seu corpinho magricela e caneludo.
- Sim, e daí? - perguntou Peixinho.
- E daí? Tire as calças e mije aí! Rá-rá-rá! - debochou o magricela.
- Vai! Diz, otário! - insiste Peixinho.
- Oxi! Seu Bidu mandou ele se calar e o doido ficou mais brabo e foi aí que 'esculhambou' mesmo ele. Seu Bidu se azoou também e foi pra cima de Manteiguinha. Mas o 'fi' da mãe saiu correndo e subiu a escadaria da pracinha em frente. Subiu c'à peste! Seu Bidu ficou em baixo brigando com ele. Chamando ele de safado, de doidinho sem vergonha, de 'caba' de peia...
- Rapaz, foi 'fulerage' mesmo! - acrescentou, arregalando ainda mais os olhos já grandes, Façanha.
- Aí, 'véi', Manteiguinha encheu a mão cum 'rebolo' de pedra e 'afiou' na porta de 'vrido' do banco! CRÁAAAASSS!!! Que se espatifou na hora! Os 'véios' na fila 'correro' pra longe! Manteiguinha 'arrochou' mais pedras nas janelas e só via os cacos 'avuá'!
- Êita, 'lasquera'! Foi a peste mesmo! - disse Peixinho.
- Êita, bagaceira! Aquele doidinho é 'dirmantelado' mesmo! Doido da peste! - comentou Façanha aos pulos de êxtase.
- Queria ter visto a bagaceira! - falou Peixinho.
- Eu tava mais Leozinho na hora. A gente se abaixou 'detrás' das moitas da pracinha. Seu Bidu ainda quis correr atrás do doido mas deixou pra lá.
- 'Hôme'! Todo mundo sabe que Manteiguinha é doido 'barrido', né não?! - disse Façanha.
- E num é! - afirmou Peixinho.
- Depois o povo 'ficaro' conversando e 'avoroçado'. Pense... - disse Lulinha.
- Sim, e tu num tava na escola não?! 'Bicho', tu vive no mundo só batendo perna é? - perguntou, com um olhar acusador, Peixinho.
- Vou dizer a tua mãe e tu vai levar uma pisa, cabeça de calango! - falou, com um olhar cínico  e com um sorriso debochado no canto da boca, Façanha.
- VÁ DIZER! VÁ DIZER! CABEÇA DE CALANGO 3 TEU RABO! VENHA PRA CÁ, SEU TRIPA! VENHA TU 'TAMÉM', 'ÔIO' DE BOI! - irritou-se pra valer Lulinha, ouriçado e ameaçando bater em ambos.
- VENHA TU! VENHA TU, PASSA FOME!!! VENHA PRA CÁ, PRA APANHAR, CABEÇA DE CALANGO!!! - brabo, berrou, Peixinho.
Façanha empurra forte Lulinha que se desequilibra e cai.
- Rá-rá-rá! Toma, otário! Risos. - manga da queda, Peixinho.
Lulinha levanta com raiva e tenta revidar. Mas apanha feio dos dois. Não aguenta a sova e começa a chorar.
- Chore, seu bosta! Chore mesmo! Otário! - fala, rindo e debochando, Peixinho.
- Sai daqui, bestão! Ou quer apanhar mais, hein?! - ameaça, Façanha.
Lulinha se afasta, humilhado e choroso.
- Ei, vocês! Não têm vergonha de estarem brigando na rua, hein? Moleques danados! - repreendeu, Dona Pacifina, da janela de seu sobrado azul desbotado, após ver a briga.
- Esse otário que começou! - responde, Façanha, emburrado.
- Menino malcriado! Não me responda! Tenha jeito! Eu vou dizer a tua mãe! - avisa a velha Pacifina.
- 'Vamo' 'simbora' daqui. - chama, desconfiado, Peixinho.
- Moleques! Vou dizer as suas mães! Vocês vão ver o que é bom pra tosse!
Os garotos saem correndo e sobem pelo Beco da antiga Rua do Sebo e se escondem perto de um galpão em construção.
- Essa 'véia' chata vai dizer a mainha e vou apanhar. - fala Peixinho.
- Vai nada, medroso! - diz Façanha.
- Vai sim! Ela é 'fuxiqueira'!
- Cala boca, 'bestão'! Vamos chamar Jejé pra gente brincar com os brinquedos dele. Deixa aquela 'véia' feia pra lá!
- É! 'Vamo'!
Eles vão à casa de Jejé.
- Jejé taí, Professora Vaidosina? - perguntou à porta, Façanha.
- Ele está estudando. E vocês deveriam fazer a mesma coisa. Vão pra casa! Jeguenélso está de castigo até aprender a estudar a sério!
- Eeeerr... Vamos estudar agora, Professora. Tchau! - constrangido, olhando para o chão, fala Façanha.
Eles saem. Ambos olham para trás e vêem o olhar cético e de censura de Vaidosina.
- Acho que não ela não acreditou na mentira. - comenta, desconfiado, Peixinho.
- Também acho.
Gritos. Uma tensão no ar, de repente.
- Oxi?! O será isso? - Peixinho fala.
- Vamos ver o que é! - o outro sai correndo ladeira abaixo.
-PEGA! PEGAAAA!!! - alguém berra.
- Oxi?! Que peste é isso? - Seu Fuxicôncio, em frente aí seu mercadinho, indaga.
Alguém passa correndo à toda velocidade. Em seguida passam dois policiais também a correr. E mais um.
- Meninos, quem está fugindo? Viram? - perguntou o velho.
- Pra mim, foi Barulhino de Seu Magrilento. - respondeu Peixinho.
- Esse 'caba' é um 'inguebado'! Ô bicho que apronta! Mas já dá trabalho pra a mãe e o pai! 'Vôte'! - indignado, diz o velho Fuxicôncio, a balançar a cabeça em gesto negativo.
- 'Vamo' ver pra onde foram! - chama Alvorocino já a correr.
Os garotos o seguem a toda velocidade.
Sobem o muro do antigo engenho abandonado  e avistam de longe a perseguição.
- Êita, êita, êita... Barulhino tá descendo o barranco adoidado! Ali! Viu? - fala, empolgado, Façanha, atrepado no muro.
- Êita! Eu vi. Tá ali 'ó'! - responde, apontando, com a mão, Peixinho.
Ainda sem ver direito no meio das várias bananeiras, procura o fujão, Alvorocino, acocorado no alto do muro.
- Acho que é ele ali... - fala, inseguro, Alvorocino.
- Ali, pô! Ali! - aponta Façanha.
- Aaaah, agora eu tô vendo!
- Os soldados não estão vendo não! O bicho vai escapulir! - fala sorrindo Peixinho.
- Barulhino é 'artista' demais! - acrescenta Façanha.
- Êita! 'Óooo'! Viram?! Pulou o muro que nem um gato! 'Fi' da gota serena! Escapuliu! - fala Peixinho.
- Oxi! Pega mais não! 'Tão' perdidinhos... O safado fugiu! - diz Alvorocino.
- Rá-rá-rá-rá!!! Otários! Bem empregado! - manga Façanha.
- Oxi! Vou 'cair fora'! - despede-se Alvorocino.
Pula o muro amarelo ovo e vai embora. Os outros ficam sentados sobre o muro a olhar o horizonte e o cair da tarde.

EternizArte
Henrique Palhares
Henrique Palhares Seguir

Amante das letras que me dá sonhos!

Ler conteúdo completo
Indicados para você