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QUEM ESTÁ NA COZINHA? - conto de terror

QUEM ESTÁ NA COZINHA? - conto de terror

Um ruído estridente ecoou desde a cozinha até o quarto principal, no andar de cima, fazendo com que Maria Helena abrisse os olhos. Era uma panela tombando no chão. Estava sem disposição para se levantar. Virou-se para tentar dormir, mas não conseguiu. Ao seu lado, o marido nem se mexia - seria preciso uma explosão para acordá-lo. Justamente ele, o provável culpado. Certamente, prendeu o suporte das panelas de qualquer jeito.

“Amanhã de manhã ele resolve” — pensou, virando-se para o outro lado.

O dia havia sido cansativo, pois estavam acabando de se mudar para aquele endereço.

Caixas e mais caixas para abrir e arrumar.

“Mudança é assim mesmo, não posso reclamar” — continuou pensando.

E virou-se mais uma vez.

Mais um som. Era algo metálico caindo no chão da cozinha.

Maria Helena se sentou na cama para prestar atenção. Outra panela caiu. Com os olhos arregalados, começou a sacolejar o marido.

Não parecia ser só o resultado de um serviço mal feito.

— Querido, acorda! Acho que tem alguém na cozinha! — sussurrou, esperando ser ouvida apenas pelo companheiro.

Joel levantou-se resmungando qualquer coisa, sem dar credibilidade à mulher.

— Você vai descer assim, de mãos vazias? E se for um ladrão?

Um barulho de pratos se quebrando fez o homem se dar conta de que poderia mesmo ter mais alguém na casa. Então, correu para trancar a porta do quarto.

— Amor, pega o celular e chama a polícia!

 

 

***

 

 

Meia hora depois, dois policiais conversavam com o casal.

— Olhamos do sótão ao porão e não encontramos sinais de arrombamento pela casa. Não foi o gato ou o cachorro de vocês que fez essa bagunça na cozinha?

Maria Helena buscou o abraço do marido em meio a uma dúzia de panelas espalhadas pelo piso da cozinha. Do armário, despencou justamente o jogo de pratos ganho no casamento. Espatifado, seus cacos dividiam-se espalhados dentro e fora da pia.

— Senhor policial, nós não temos nenhum animal de estimação — respondeu Joel, aconchegando ainda mais a esposa em seus braços.

— Encontramos alguns pelos escuros sobre a mesa da cozinha, mas talvez tenha sido o animal de algum vizinho – disse o outro policial, querendo finalizar a ocorrência. — Aqui perto tem um parque. Pode ter sido um gambá, um esquilo, ou mesmo um sagui. Afinal, animais pequenos passam facilmente pela brecha de janelas e basculantes.

O casal se convenceu da explicação dada pelos policiais e, para não perderem mais horas de sono, deixaram a arrumação para a manhã seguinte.

 

***

 

 

Maria Helena estava envolvendo com um band-aid o dedo cortado, quando o marido desceu para o café.

— Amor, você acordou cedo e nem me esperou para eu te ajudar. Cortou o dedo em algum caco? Fique aí, pode deixar que eu limpo o resto.

Ele pegou a vassoura, mas se deteve diante de uma marca avermelhada no piso. O sangue escorrido do corte havia formado uma pequena mancha na cerâmica, semelhante ao formato de uma coruja.

Sua esposa não podia ver aquilo. Seus nervos, nos últimos dias, andavam à flor da pele. Por isso, andava se impressionando com qualquer coisa. Apressou-se em limpar.

 

 

***

 

 

O dia foi exaustivo com as arrumações. Joel, que retornaria ao trabalho no dia seguinte, já dormia um sono pesado. Maria Helena não. Rolava na cama ruminando os conselhos do seu médico para adotar uma criança. Os tratamentos para engravidar, nos últimos três anos, não haviam funcionado. O marido ficou tão animado com a ideia da adoção que comprou uma casa maior, supondo que a ajudaria a se decidir. Em parte, ele estava certo. Em sua vida imaginária, lá estavam três crianças sorridentes, correndo e brincando de um canto a outro. Preencheriam todos aqueles cômodos vazios.

Ao percorrer a casa em pensamento, Maria Helena lembrou que não havia fechado os basculantes da cozinha. Com as crianças correndo em sua mente, nem se deu conta do avançado da hora. Até os acontecimentos da noite anterior a haviam abandonado. Desceu as escadas, rumo à cozinha, quase sem se dar conta do que estava fazendo. O desejo da maternidade era mais forte.

À entrada da cozinha, ela se deteve.

Sentiu uma descarga de arrepio percorrendo seu corpo dos pés à cabeça.

Paralisou.

As pernas pareciam dois blocos de concreto fincados ao chão.

A cena inesperada acelerou tanto as batidas do coração, que ela ficou sem voz.

“Meu Deus!” — apenas pensou.

Dois olhos vermelhos e esbugalhados a fitavam. Deles, parecia sair um fogaréu de ódio. Penas e penugens irregulares, de tonalidades escuras, conferiam à criatura um aspecto amedrontador. O bico semiaberto mostrava uma respiração ofegante e sedenta. Dele, escorria uma gosma fétida, que exalava a rato podre. Aquele ser asqueroso se assemelhava a uma coruja, mas parecia vir das profundezas do inferno!

No momento em que Maria Helena conseguiu mover um centímetro da perna, a coruja demoníaca abriu as asas. Valendo-se de algum poder sobrenatural, uma cadeira da cozinha foi lançada pelo ar em sua direção. Maria Helena, pálida, fechou os olhos esperando o pior. No limite do seu pavor, desmaiou.

 

 

***

 

 

— Amor, você não vai acordar? Por que você dormiu no sofá da sala? Olhe, eu já fiz o café e preciso ir para o escritório.

Maria Helena aos poucos era despertada. A princípio, confusa, nada respondeu. Assim que as recentes lembranças se avivaram, agarrou-se aos braços do marido. O medo era evidente em seu olhar.

— Não! Não me deixe sozinha! A coruja! Ela quer me matar!

— Amor, acalme-se! Acho que você estava sonhando!

— Não! Ela jogou a cadeira da cozinha em cima de mim! Você não ouviu nada? Não viu aquela criatura?

O marido tentava controlar a histeria da esposa.

— Amor. Não aconteceu nada. Veja por si mesma: está tudo em ordem na cozinha e no resto da casa.

— E como eu vim parar no sofá? Quem me carregou até aqui?

— Ontem foi um dia cansativo. Acho que você se sentou por um momento e terminou pegando no sono.

Joel pensou em sonambulismo, mas nada falou. Sua teoria podia acabar piorando o estado da mulher. Ela, aos poucos, ia se acalmando.

— Amor, se você quiser eu aviso que chegarei mais tarde. Só não quero deixar você em casa, perturbada com um pesadelo.

— Eu estou melhor.— Respirou fundo. — Não quero que se atrase logo no retorno das suas férias. Pode ir, vou ficar bem. Qualquer coisa eu te ligo.

***

 

 

A faca bem afiada deslizava com facilidade pela carne. Entrava e voltava com uma fatia de bife. Em menos de meia hora o almoço estaria pronto. Maria Helena ainda tentava se convencer de que tudo havia sido realmente um pesadelo.

Foi à geladeira buscar o tempero e, ao retornar para tratar a carne, se deu conta de que algo estava errado. Muito errado.

— Ora, eu poderia jurar que tinha deixado a faca aqui sobre a pia…

O mesmo arrepio da noite anterior percorreu o seu corpo. O cheiro repulsivo trouxe consigo a sensação de que estava sendo novamente observada por aquele par de olhos de fogo. Havia mais alguém naquela cozinha.

— Oh, meu Deus, por favor, não!

Sussurrando uma prece, foi se virando lentamente, mas não viu nada.

Não havia ninguém.

Ficou aliviada por ver que tinha sido apenas mais uma impressão ruim. Mas e a faca? Podia tê-la deixado dentro da geladeira, ao apanhar o tempero. Não. Lá ela não estava. Continuou o preparo do almoço. O cheiro da baba daquela horripilante coruja parecia exalar das fatias de carne. Quanto mais pasta de tempero colocava, mais forte ficava a sensação da presença daquela criatura. Isso era impossível! Só podia estar ficando louca! Melhor seria preparar um frango.

Ao virar-se, soltou um grito e levou as mãos ao rosto, num reflexo quase infantil. Acreditava que poderia fugir daquela cena, mas tudo já havia se fixado em sua mente.

Uma mulher esquelética, branca como uma folha de papel, segurava a sua faca numa das mãos, enquanto suspendia com a outra as patas daquela asquerosa coruja negra, que se debatia. Com um corte extenso, que a abria de um lado a outro, ela agonizava. E, daquela fenda, jorrava um sangue grosso e escuro, cujo cheiro era a causa de toda a sua repulsa.

Escorada no balcão, Maria Helena conseguiu conter o desmaio.

Os ruídos perturbadores cessaram e ela teve coragem de espiar por entre os dedos. Nem a mulher e nem a coruja estavam mais lá. Apenas a faca suja de sangue jogada no chão.

 

 

***

 

— Amor, tome isso e tente se acalmar.

Após ter recebido a ligação aflita da esposa, Joel voltou correndo para casa. Havia parado apenas na farmácia para comprar um calmante mais forte, pois sabia que iria precisar.

— Querido, tem alguma coisa me perseguindo! Eu vi! A coruja! E o sangue! A faca! Aqui na cozinha! Eu vi! A mulher... — A voz trêmula retratava todo o seu pavor e desespero.

Joel abraçou Maria Helena para ampará-la, mas, no fundo, também estava preocupado. Sabia que havia uma energia sobrenatural naquela casa, mais especificamente, na cozinha.

Por isso, chegou à conclusão de que precisavam de ajuda.

 

 

***

 

 

— Fred, muito obrigado por ter vindo. Os outros já estão na cozinha. Vamos entrar.

O último convidado era conduzido pelo anfitrião para se juntar aos demais. Ele e Fred trabalhavam juntos há anos. A pedido do amigo conseguiu reunir um grupo de médiuns em seu auxílio: as professoras Carmélia e Mauriceia, e os médicos Aureliano e Alcides.

Todos se posicionaram sentados ao redor da mesa da cozinha e fecharam os olhos. Era preciso que entrassem numa sintonia espiritual. Alcides, o mais velho do grupo, conduziu a prece inicial. Depois, um inquietante silêncio.

— Sinto que alguém está entre nós — disse Carmélia, a mais sensitiva.

Mal terminou de falar e uma respiração ofegante se fez ouvir.

Subitamente, a jarra de vidro que estava sobre a mesa espatifou-se no chão, derramando água aos pés de Maria Helena.

— Ah! Meu Deus! É comigo, eu sabia! Ela quer me matar!

— Calma, calma, Dona Helena! — Fred colocou sua mão sobre a dela. — Estamos aqui para ajudar a senhora e os nossos irmãos espirituais, que ainda não encontraram o caminho da luz.

Do outro lado da mesa, Carmélia, em estado de transe, colocava-se à disposição para a comunicação com os espíritos.

— Sinto muitas energias negativas!

De repente, um silêncio.

— Precisamos dar as mãos e unir nossos pensamentos!

Assim, a médium preparava a todos para o que viria em seguida — que jamais seria esquecido por nenhum deles.

Tudo começou com uma brisa.

O vento foi aumentando a ponto de produzir um assovio. Alvoroçava os cabelos e espalhava os guardanapos. Cada vez mais forte, virou um redemoinho que girava ao redor da mesa e abriu as portas dos armários e as janelas. Percorrendo toda a cozinha, carregava consigo panos, potes e outros utensílios. Tudo voava na cozinha e o grupo se esforçava para não soltar as mãos em meio àquela ventania.

Foi quando surgiu uma menina pálida, sentada sobre a mesa.

Fred precisou segurar com mais força a mão de Maria Helena, pois ela ficou extremamente perturbada com aquela visão.

Os cabelos claros e cacheados emolduravam um rosto angelical — devia ter uns cinco anos. Ela chorava muito e apontava para o chão.

No momento seguinte, uma sombra tomou conta da aparição da menina e ela se transformou numa horrenda coruja. Maria Helena registrou que aquele odor já era conhecido.

A ventania continuou e cada giro do redemoinho levava consigo um tufo de penugens daquele ser em decomposição.

Do outro lado, os olhos arregalados de Joel não negavam o seu medo. Os outros, com exceção da sua esposa, estavam firmes, aparentando calma e controle.

— Me ajudem! — Uma voz ecoou.

— Dona Helena, não olhe! Mantenha o pensamento em Deus e em tudo o que é mais sagrado! — disse Carmélia.

O vento forte continuava e seria preciso gritar para se fazer ouvir.

Então, da mesma forma que surgiu, a coruja sinistra desapareceu.

Mas a ventania não, e as luzes começaram a piscar.

Entre os breves momentos de claridade e escuridão, outra figura aterrorizante surgiu ao lado de Maria Helena. Uma mulher muito magra e muito branca estava de pé. O tecido da sua longa camisola e seus extensos cabelos loiros tocavam o rosto da dona da casa.

— Quem é você? – Carmélia perguntou, tentando estabelecer uma comunicação.

— Não te interessa!

— O que você quer com a nossa irmã?

— Não é da sua conta!

— Aqui não é o seu lugar, vá embora!

— Não! Esta é a minha casa! Vocês é que devem ir embora!

— Revelar tudo vai te libertar e você vai poder seguir para a luz!

O vento carregava tudo, inclusive aquelas vozes, através da cozinha. A claridade continuava indo e vindo.

— Mentira! — afirmou o espírito.

— Todos nós rezaremos por você!

— Mentira! Mentira!

— Você não precisa mais ficar aqui para proteger o seu segredo! Eu já sei de tudo!

— Você só fala mentiras! — esbravejou.

— Procure a luz! Siga o caminho da luz para encontrar a paz!

Naquele momento, o espírito se foi. A ventania e os momentos de escuridão também.

Carmélia estava exausta.

Alcides conduziu a prece final.

Maria Helena permanecia muda, em choque.

— Ainda não terminamos. — Carmélia alertou com um olhar de cumplicidade lançado ao resto do grupo e continuou. — Sei que está tarde. São quase onze horas, mas temos que terminar isso o quanto antes.

 

 

***

 

 

Depois de duas horas quebrando o piso da cozinha, Joel e Fred estavam esgotados. Aureliano, o mais jovem, prosseguiu cavando, até que encontrou algo que chamou a atenção. Mauriceia, que observava ansiosa, correu para ajudar os homens. Aos poucos o objeto se revelava no meio da terra, socada naquele buraco. Uma figura em relevo sobressaía em sua superfície. Com esforço conseguiram liberar e puxar uma pequena caixa de madeira, do tamanho aproximado de um micro-ondas.

Maria Helena precisou ser apoiada pelo marido para não desabar.

Na tampa da caixa havia uma coruja entalhada, com as mesmas características daquela horrenda aparição.

A caixa ocultava a razão de tudo: a ossada de uma menina.

Entre os trapos que a envolvia, um cordão dourado reluzia o nome: Alice.

 

 

***

 

 

No escritório, durante um intervalo para o café, Joel e Fred conversavam.

— Posso afirmar que agora, depois de dois meses, Maria Helena conseguiu superar tudo. Está cada dia mais animada. Depois da reforma na cozinha, ela tem feito receitas novas, plantou uma pequena horta no quintal e está até fazendo um curso de culinária.

— Isso é maravilhoso, Joel. Mas eu acho que vocês deviam frequentar as nossas reuniões. Assistir às palestras, tomar passes... Iria ajudá-los a lidar com outras situações.

Fred puxou o amigo para o canto da sala.

— Há anos uma mulher matou a sua filha e escondeu o corpo naquela caixa de madeira enterrada no piso da sua cozinha. A polícia pôde apurar e confirmar toda essa história. A mãe era uma pessoa perturbada. O ex-marido a denunciou pelo sumiço da menina. Por sua vez, foi internada num manicômio, onde acabou morrendo, sem revelar o que havia acontecido com a filha. Por isso, esses dois espíritos não encontravam a paz. Ficavam vagando, presos no ciclo desse assassinato. Encontrar o corpo da criança e revelar a verdade libertou o seu espírito para seguir o seu caminho. Quanto ao espírito da mãe... Nós não temos certeza se conseguimos ajudá-lo.

— O que você está querendo dizer?

— Que talvez esse espírito possa estar preso ao local onde tudo aconteceu. Ou, pior do que isso: pode querer se vingar.

— Como, Fred? Está tudo bem lá em casa. Não estou entendendo!

— O espírito não consegue se libertar do ciclo do seu crime. Isso pode o levar a obsidiar alguém, a sugerir um transtorno ou até induzir a cometer o mesmo crime. Geralmente eles escolhem pessoas vulneráveis. É assim que esses espíritos ignorantes agem.

Colocando a mão no ombro do amigo, continuou.

 — Carmélia me avisou hoje de manhã que nós precisamos voltar a sua casa o quanto antes.

— Não é possível!

No mesmo instante, Joel ligou para casa.

— Fred, ela não está atendendo!

O amigo falou alguma coisa, mas Joel não chegou a ouvir. Um pressentimento dizia que a esposa precisava dele. Pegou o carro e voou para casa.

 

 

***

 

 

Maria Helena estava na cozinha. Roupinhas de bebê em tonalidades de rosa estavam espalhadas sobre a mesa. Com os olhos marejados, mirou o marido quando ele entrou ofegante.

— Querido, estou grávida! Isso não é um milagre? Estou tão feliz! — E correu para abraçar o marido. Em seu pescoço, um cordão de ouro refletia um nome: Alice.

 

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