[ editar artigo]

" Onça-me", por favor

De repente eu estava ali. Pés descalços, camiseta branca e jeans. Adentrava naquela floresta como se guiada pelo som das águas centrais, núcleo de mim mesma. Num ressalto, olho ao lado e vejo, meus olhos em seu olhar, seu olhar em meus olhos, espelho. Vinha ela, felina, feminina, selvagem, ao meu encontro. Pergunto-lhe: Quem é você, onça? Num movimento sincero e doce, ela, domesticadamente, rossa em minha perna, como um gatinho manhoso. Não era apenas um rossar despretensioso, era um convite. Naquele momento, ela e eu, encontrariamos, juntas, o rio de minha vida, de nossas vidas. Ela tinha sede, muita sede em embebedar-se daquela água-eu, e eu um desejo íntimo de embebedar-me daquela água-ela. Ela sou eu. O Rio mostrou-me enquanto olhávamos o espelho d'água, lado a lado. Me deleitei em minhas águas-emoções e ela agora voltou para dentro de mim. Não estou só, não sou só, sou nós! Agora eu estava pronta para enfeitar-me com tudo o que a floresta oferecia. Gravetos tornavam-se enfeites, folhas eram enfeites, as nuvens, as penas, as pedras, tornavam-se enfeites. Estava feito! Agora eu a ouço. Ouço toda a graciosa fúria do meu feminino. Posso ser, posso sê-la. Agora vejo meus cabelos longos, lindos! Vejo-me lindíssima! Alma lavada com as marés de um rio. Alma grande! Desde então, desde aquele reencontro, ando pelas minhas florestas, suavemente. Caminho deixando rastros, sinais que marcam o meu lugar, as minhas condições. Deseja adentrar-me? Então, "onça-me", por favor! Estou inteira, reencontrada, acordada e atenta. Felina em meus sentidos, percebo todos os seus movimentos, seja no claro, ou na profunda escuridão. Reitero meus opostos e acolho minha luz e minhas sombras, complementares, e assim, docilmente sou feroz. 

Ler conteúdo completo
Indicados para você