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O Susto

Crônicas do Bananil - O Susto

Espertino e Falsinaldo estavam comendo e bebendo junto a Caxacério, o dono do bar.
- "Caxa", você têm notícias de "Sacri", aquele corno da peste? - perguntou Falsinaldo, sempre com aquele sorriso cínico no canto esquerdo da boca.
- Homem! Não sei. Ele me disse que iria ficar uns meses fora, pois as coisas estavam ruins. - respondeu.
- Sei... Pois Putiane vai fazer a festa! Risos.
- Homem?! Deixe quieto... Minha comadre é gente muito boa. Ela não é disso não.
- Hoje não. Mas já foi muito! - comentou Espertino.
- As pessoas mudam. - falou Caxacério.
- É, pode ser... É que eu vi uns "movimentos estranhos" dela por esses dias, sabe?! - apertando os olhos, e falando devagar, acrescentou Falsinaldo.
- Foi não! Homem?! Você anda vendo demais! - Caxacério franziu a testa já bem enrugada.
- Eu vi ela de conversa sabe com quem?
- Com quem? Fala logo! - Espertino disse, interessadíssimo.
- Ela estava de conversa com Prostituzilda. Aquela "quenga" sonsa! Estavam lá a Rua do Comércio.
- E? Conversar por conversar, estamos conversando, não? Por exemplo, vocês dois são dos "viados" velhos e eu sou o agenciador de vocês ora.
Risos de todos.
- Pois é! É "verdade", "viadão" aposentado. 
Mais risos.
- Sim, fala mais, "Falso"! Elas estavam conversando o quê? - perguntou Espertino.
- Sei não! Elas não me chamaram na conversa.
Risos e mais risos.
- Eu não digo que é um "fresco" mesmo! Ah, "fi" da peste! Risos.
- Você gosta, né?! É um sem-vergonha mesmo! - comentou Caxacério, beslicando a bochecha de Falsinaldo.
- Tá certo! Mas, sem maldade, tua comadre deixou a "vida fácil". Sacri também deixou a malandragem e a bandidagem. - falou Falsinaldo.
- Pois é! Realmente... Eles eram "barra pesada"! - falou Espertino.
- Foram muitos anos na cadeia também... - acrescentou Caxacério.
- Sim, mas Prostituzilda tá na ativa! Aquela doida ali não tem jeito não! - falou Falsinaldo.
- Tem não! A criatura já apanhou e apanha daquele doido do Violentônio e não deixa nem nem ele e nem a "zona". Não sei como aguenta! Eu, hein?! - com os olhos arregalados e desconfiados, falou Espertino.
- Pois é, "viadinhos". Pois é... - debochou Caxacério.
- Eu me lembro, lá atrás, quando eu era menino... Que Violentônio tinha fugido do Carandiru, e apareceu lá na casa da mãe dele e  Prostituzilda foi lá atrás do sem-vergonha... - falou Falsinaldo.
- Sim, sim... Quando você era menino... Diga assim: quando eu ficava babando por ela e ela não te queria, safado! - falou Caxacério.
Risos.
- Sim, me lembro dessa história... Foi lá em Delmiro Gouveia. - acrescentou Espertino.
- Não, "carái"! Foi em Água Branca. Nós somos de lá. - corrigiu Falsinaldo.
- Êita! É mesmo! Eu que trabalhava e morava em Delmiro.
- Morava, sim. Contudo, trabalhar... - comentou, debochando, e virando o rosto com um dos olhos fechados, Caxacério.
Risos cínicos. Espertino serve a cerveja para todos e come uns pedaços de carne e queijo. Toma uns goles de cerveja em seguida. Os outros repetem os gestos.
- Sim? Eu estava dizendo que Prostituzilda foi visitar Violentônio depois que o corno safado do Energuminaldo, que iria casar com ela - já estavam noivos e tudo! - descobriu que ela fazia "programas" em Paulo Afonso, na Bahia.
- Ooooxe?!!! Ela estava noiva de queeeem??? - espantou-se Espertino.
- Noiva - de aliança e tudo! - de Energuminaldo, irmão de Ciumentôncio, lá da banda de música, não lembra não? - acrescentou Falsinaldo.
- Rapaaaaazzz!!! Bicha safada! - falou Espertino, boaquiaberto com a história.
- Homem! Energuminaldo é que foi muito otário! Sabe aquele ditado: o corno é sempre o último a saber?! Foi o "mané"! Dois irmãos dele e mais um amigo que o enganaram e aí, Energuminaldo, flagrou a "rapariga" com o sem vergonha do Violentônio. - arrematou Falsinaldo.
Espertino balançou a cabeça em gesto negativo.
- Gente boa! Vou ajudar Ligeirino. - falou enquanto se levantava, Caxacério.
- Sim, mas me diga se você "pegou" Prostituzilda? - perguntou Espertino.
- Não, não...
- Sim... Engana que eu gosto...
- "Peguei" não! Ela queria dinheiro. Então, não deu!
- A "bicha" é quenga mesmo! Só presta com um "cabra" que nem Violentônio.
- Pois é.
Caxacério foi à cozinha do bar e encontrou Ligeirino chorando.
- Oxe?! O que foi, homem? - perguntou, intrigado.
- Rapaz... Recebi uma notícia terrível agora! Shuif!
Respirou fundo, Ligeirino.
- Meu sobrinho matou o próprio pai!
Caxacério se arrepiou do susto.
- QUE CONVERSA?! COMO FOI ISSO???
- O cara é doido, alucinado... Ainda usa drogas que a gente sabe! Sei lá o que aconteceu, mas o pai dele, Azuretanildo, gente boa... Parece que tentou segurar o filho que "tava" surtado e o doido o esfaqueou e matou o homem... Shuif! Suspiros.
- Meu Deus do céu!!! Que coisa horrorosa!!! - Caxacério se sentou após se sentir mal.
- Demais... Que desgraça!!!
- Acho... que estou passando... mal... Chegaaa... - Caxacério passa a mão no peito e começa a ficar mais vermelho que de costume. Ele está ofegante.
- Tome água! Beba... Deixe eu pegar um remédio aqui! - falou Ligeirino.
Ele fuçou uma caixa de remédios logo na prateleira. Pegou um comprimido pra pressão alta e deu ao amigo. Em seguida começou a abaná-lo.
- Vou chamar alguém pra ajudar! - falou Ligeirino.
- Pode deixar, "Ligeiro". Foi só o susto... Minha pressão subiu...
- Que bom que foi só isso... Suspirou meio aliviado.
- Foi o choque da notícia.
- Realmente... Muito triste...

EternizArte
Henrique Palhares
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Amante das letras que me dá sonhos!

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