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O sonho e o pesadelo - Crônicas do Bananil


João Henrique Palhares - O Sabre da Serpente

Caxacério estava em seu quarto pensativo. Olhou-se diante do espelho.
"Estou ficando diferente. Os cabelos estão embranquecendo... Parte deles já caíram também. É pra se lascar mesmo!"
Foi trabalhar taciturno e se encontrou com Sacripantódio:
- Fala, 'Caxa'! Como vai?
- Meio lá e meio cá. E tu, criatura?
- Tô lascado! Na rua da amargura com a esquina da desgraça e só a caveira 'sirrino' com o grilo cantando dentro.
- É a peste mesmo! Acho que vou acabar de matar!
- 'Hôme', faça isso não com seu amigo 'véio'! - disse sorrindo, Sacripantódio.
- Tua vida é fazer graça, hein, 'cabra'?!
- Tu não sabe que caminhoneiro é igual a pneu de caminhão: quanto mais trabalha, mais 'liso' fica!
- Tô sabendo, besta fera! - Caxacério abraça o pescoço de Sacripantódio com apenas um braço e assanha os cabelos dele com a outra mão.
- A vida do 'trabaiadô' é 'roer beira de penico', 'hôme'! Tu não sabe como é?! - fala Sacripantódio ao se 'livrar' dele.
- Assim você 'tá bonito', 'cabra'! - manga do amigo e seu 'choro'.
- Vou 'cuidar', 'Caxa'. Não tem outro jeito mesmo! Vou lá! 'Inté' mais!
- Vou indo também! Um abraço!
- Outro, meu 'véio'!
Caxacério seguiu para a o fórum.
Ao chegar lá, foi à sala dos advogados para aguardar pelo seu defensor.
Sentou-se e adormeceu.
Ele abre os olhos e se encontra com uma mulher desconhecida. Ele levanta e a segue. Ela abre a porta e toma um susto.
- NOSSA!!! O QUE ACONTECEU?! - ele grita assustado.
A cidade está inundada. Chove demais!
- Que coisa! Como pode isso? - ele olha para os demais e estão quietos como se nada tivesse acontecido. A mulher sumiu.
- Preciso sair daqui... Mas como?
Ele se joga nas águas e sai nadando até o outro lado da rua alagada. Mas a torrente é forte.
Ele se sente um pouco cansado. Contudo, continua a travessia. Luta para não ser carregado pelas águas.
- PUF! Arff! Poxa... Consegui!
Ele sobe no telhado duma casa. As águas estão mais fortes e a chuva também.
- Como pode isso? - ele está confuso.
Ele vai se equilibrando pelo telhado da casa. Vai até o fundos.
- Oxi?! Que estranho! A cidade está alagada e a piscina desta casa tá vazia!
- Ei, Ei! 'Caxa', meu amigo! Vamos voltar? - uma voz distante o chama.
Caxacério desperta. Está meio zonzo de sono.
- O que foi? Oxi! Que coisa! - ele fala.
- Tava dormindo, homem?! Tá velho e cansado mesmo! - diz, a sorrir, o Doutor Justiniano.
- Homem, é você quem tá aí, doutor?!
- Não, rapaz! Sou seu pai, meu velho!
- Sei...
- Dormiu mesmo! Poxa! Sonhou e tudo!
- Homem, eu sonhei mesmo! Sonhei que estava numa praia bem bonita e longe daqui. Eu tava com umas loiras bem gostosas e lindas! Pense! Cada 'pedaço' de mulher que dava dois de mim!
Justiniano sorri. E fica curioso.
- Eu tava de 'ráibam' e com uma sunga verde cana - daquelas que brilha no escuro, sabe?! - e ainda tinha umas estampas com umas girafinhas com chapéu vermelho sangue e uns 'soiszinhos' bem amarelinhos...
- Tava bonito mesmo! Rá-rá-rá! - se diverte o advogado.
No canto da sala, sentado próximo deles, um outro homem e uma mulher riem da história.
- Mas aí, doutor, você não sabe o que aconteceu!
- Oxi! Sei não. Me conte, homem!
- Veio uma onda gigante! Um tsunami de dinheiro! Era dinheiro que só a 'mulesta'! Só notas de cem dólares!
- Vixe! Era em dólar?! Risos e mais risos.
- Somente. Aí eu tinha uma prancha de surfe e saí cortando a crista da onda de dinheiro! - 'Caxa' fala enquanto finge que está surfando.
- Rá-rá-rá! Foi nada! Rapaz, o sonho foi bom mesmo!
- Foi interessante demais! E as mulheres ainda estavam comigo em cima da prancha! Era uma meia dúzia de 'galegas'!
Risos dos ouvintes.
- Sim, deixe as 'galegas' e o 'mar de dólares' pra depois. Daqui a pouco será a nossa audiência. - diz o advogado.
- Certo, doutor. Estamos aqui pra isso.
- Vamos nos sair bem, amigo! Confie em mim.
- Eu confio, meu amigo! Eu não confio é no homem de toga e na polícia, sabe?
- Sei bem, meu velho. Se sei...
- Quando cuspi no focinho do juizeco da outra audiência, escarrei minha indignação com essa gentalha do Judiciário! São tão safados quanto os outros políticos e a polícia. Não tenho ilusões com esse mundo não, doutor!
- É, velho amigo, minha fé é pouca também.

EternizArte
Henrique Palhares
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Amante das letras que me dá sonhos!

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