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O choro do menino Miguel

O choro do menino Miguel

Na época da escravidão legalizada mãezinha não podia me carregar,

Dá de mamar, me levar pra passear e nem podíamos ter um lar,

Éramos separados logo após o parto,

E eu vendido como mercadoria sofria sem poder me despedir

E dizer que sem mãezinha não tinha motivos pra sorrir,

Mãezinha era uma mulher escravizada

Obrigada a cuidar, dá de mamar e

Levar para passear o filho da Sinhá,

Hoje, depois de séculos de abolição da escravidão legalizada,

Vivemos ainda a discriminação escancarada,

Mãezinha tem trabalho precarizado,

Não teve acesso à educação,

Sofre todas as formas de exploração,

Tendo que limpar o chão pra comprar nosso pão,

Mãezinha não teve oportunidade de viver com dignidade

Nesta sociedade racista que perpétua a desigualdade,

Mais uma vez mãezinha não pôde como cuidar de mim,

Chorei, implorei pelo colo da Mãezinha,

Mas para nos sustentar teve que passear com Pet da Sinhá,

Que mesmo em uma pandemia não permitiu

Que mãezinha cuidasse da nossa casinha,

Sinhá que sem cuidado me deixou sair sem proteção,

Uma criança vulnerável e sozinha

Que buscava apenas o colo da sua Mãezinha.

Foto: ilustração feita pelo cartunista carioca Kinho

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Keth Braz
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Escrevo poesia desde 14 anos. Sou apenas uma poeta que externiza através das palavras as inquietações que sopram dentro de mim.

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