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O 'artista' - Crônicas do Bananil

João Henrique Palhares - O Sabre da Serpente

Zé Bestafera e Mané Catota estavam sentados na pracinha de Água Branca.
- Ei, Zé! Eu tava vendo um filme muito bom, mas eu fiquei com medo! - Mané falou olhando para o amigo enquanto abraçava as pernas finas e longas.
- Oxi?! Como é isso? Conta aí, 'véi'! - o garoto coça a cabeça intrigado e levanta uma das sobrancelhas.
- Eu vou contar...

"Havia uma cidade chamada de Cidade dos Monstros. Viver e trabalhar nela era uma lástima. Os moradores viviam nervosos, não se respeitavam, agrediam-se costumeiramente. Havia poucos dias, um menino feriu outro, deixando-o cego por causa duma pancada com um porrete, o motivo: roubar a sua bicicleta.
- Viver neste lugar é lúgubre. Digo isto pois sou filho daqui. - disse Ferâncio, 'futucando' as ventas.
- Sei. Mas vi outros lugares infelizes por onde andei. - respondeu Monstrengônio.
- É triste. Então seja mal vindo. É o que posso dizer.
- Sua honestidade é suficiente pra mim.
Monstrengônio saiu caminhando e observando a tristeza das paredes e das árvores, dos demais seres que por ali andavam, o céu cinzento e o ar pesado e frio.
- Olá, estranho! - falou Vampilouco.
- Oi. Seu nome...
- Vampilouco. E o seu?
- Monstrengônio.
- Você vem de onde?
- Venho de Tristeza Maldita.
- Já ouvi falar.
- Estou procurando sangue.
- Só matar alguém. Rasgue o ar e você encontrará algum mortal no mundo dos vivos. Afinal, lá na sua cidade não é assim?
- Não. Compramos o sangue dos carniceiros.
- Hum... Estranho, muito estranho!
- Digo o mesmo daqui.
- É como falei... Você é um monstro. Todos os monstros do Mundo Maldito, ao entrar nesta cidade, ganham o poder de rasgar o ar e assim chegar aí mundo dos vivos. Faça o que digo.
- Agradeço, Vampilouco.
Vampilouco se desfez no ar igual fumaça e foi embora com o vento.
Dois pequenos monstros estavam brigando. Em volta deles, um bando torcia por mais briga. Os monstros adultos também atiçam a confusão!
- Bando de cretinos! Idiotas encrencando outros idiotas! - fala para si, Monstrengônio, a olhar a cena e censurá-los.
Ele segue seu caminho por aquelas ruas decadentes e horríveis.
- Ei! - alguém o chama.
Ele se vira e procura, mas: PAF! Recebe um bocado de areia nos olhos.
- URGH! Que diabos! - irritado e atônito, cego temporariamente, Monstrengônio fala.
- Vamos agora! - o menino chama os outros.
Os pequenos o assaltam. Aproveitam-se da situação.
- MALDITOS! - grita.
Os garotos fogem com os pertences e se escondem nas sombras..."

- Huuum... Sim? Terminou? - perguntou Zé Bestafera.
- É que eu não terminei não, otário! RÁ-RÁ-RÁ!
- Macaco! É um 'fresco' mesmo! - irritado, respondeu Zé, frustrado também.
- 'Per'aí', bicho! Tenho outra história melhor!
- Você vai contar mesmo?
- Vou, 'bestão'! Escute...

"Era uma vez, num mundo bem distante, noutra galáxia, noutro universo muito louco...
Uma nave gigante, do tamanho de Água Branca, voava sobre o planeta Azul e Branco da galáxia de Dinossauro Pescoçudo. Nela estava o General Máscara Vermelha, ele era terrível e mau, mas guardava um segredo. Qualquer um que tentasse descobrir, o General dava um jeito de matar ou enganava o curioso, mas por pouco tempo, Máscara Vermelha era impiedoso e implacável!
- Capitão Orelha Seca! - disse Máscara.
- Sim, General!
- Envie tropas para o planeta Azul e Branco imediatamente!
- Mas...
- Sim? Alguma objeção?
- Eeer... General, qual a missão?
- Pressinto que há uma base rebelde no hemisfério sul do planeta, numa região pantanosa no interior deste continente. Veja no mapa!
Um mapa se abre no monitor.
- Eeer, Senhor, como sabe? O Senhor pressentiu que há rebeldes lá? Não entendi.
- Meu instinto e um sonho me avisou que os rebeldes estavam próximos e escondidos numa região de florestas e pântanos. Até hoje meus sentidos e sonhos jamais me enganaram, entendeu?!
- Estou certo que sim, Senhor! Quem já passou por tantas batalhas e sobreviveu até agora, tem uma inteligência superior...
- Bem... Prepare uma missão com bons guerreiros que tenham conhecimento do terreno. Mais alguma dúvida?
- Não, Senhor! Vou providenciar agora mesmo!
O Capitão sai..."

- Oxi?! E daí aconteceu o quê? Vai diz! - pergunta curioso.
- Eles foram até o planeta e lá era meio escuro, sombrio, uma neblina e a luz mal entrava... Umas árvores esquisitas, uma sussurros sinistros também... - com o olhar vítreo e ensaiando movimentos lentos e imitando um soldado com um fuzil em punho, pronto para o ataque, encena Mané Catota.
- E aí os rebeldes apareceram?
- Não... A tropa seguiu e aí eles se depararam com um rebanho de monstros esquisitos, grandes como uma carreta, eles pareciam dinossauros misturados com elefantes e com asas de morcego! Bichos feios da peste! Os monstros viram um dos soldados e se espantou e outros monstros foram pra cima da tropa. Oxi! Quando menos se esperou, os bichos já estavam em cima!
- E aí eles fizeram o quê?
- Oxi! Carreira! Correram! E eles são doidos de ficarem?! Bicho, foi agonia! - o menino fingia correr, olhava pra sua frente, para trás, para os lados.
O outro garoto o olhava tenso e encolhido, com os braços enroscados nas pernas, por baixo da camisa.
- Vai diz! E aí?
- 'Hôme'! Uns foram atropelados pelos bichos, outros se esconderam por baixo de uns troncos, uns atrás das árvores até os monstros se dispersarem. Daí...

"- Tenente Ogeon! Tenente! - chama o sargento Tebral.
- Urgh! Estou... ferido...
- Sim. Somos surpreendidos por aquelas bestas! Os sensores não as detectaram!
- AAAh! Que droga! Deve ser a zona magnética do planeta que atrapalhou os aparelhos...
O homem se levanta, manco, tenta permanecer de pé, outros soldados aparecem...
Alguns morreram, mas assim seguiram a cumprir a missão. Mas aconteceu algo estranho..."

- O que foi? Vai diz! - pergunta o garoto.
- Não ouviu? Correu pra li! - aponta o outro.
- Vi não. O que foi?
- Era um bicho.
- Deixa pra lá! Vai, conta o resto!
- Depois. Tem alguma coisa ali...
Mané Catota corre para o meio das plantas e desaparece.
- Oxi! O que foi, Mané? Ei! Mané? HÃAAA!!!
Ei, ei, ei! Oxi! Acorde! ACORDE!
Silêncio. O menino está deitado e não se mexe.
- Ei, acorde! Acorde! - Zé o balança e começa a ficar nervoso.
O menino está mole e desfalecido.
- CATOTA! CATOTA! CATOTA! - suando frio, coração acelerado, o menino está aperreado com o outro desmaiado.
-'VALEI'-ME, JESUS! SOCORRO! SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDE! AJUDA! ACUDAM AQUI!
O menino fica mais e mais tenso, chora, desespera-se.
Grita, vai para um lado e para o outro. Outras pessoas ficam curiosas e se aproximam.
- SOCORRO! SOCORRO! ELE ESTÁ MORTO! - diz Zé Bestafera.
- Rápido, vamos levá-lo para o hospital! Venha me ajude! - fala Seu Magrilento.
Dona Desconfiânia sai de casa pra olhar e fica apreensiva.
Seu Morrinha do Bar se aproxima do garoto desmaiado.
AAAAAAAAAAAAAAAhhhhh!!!!!!
Todos se assustam e dão um salto para trás.
- OTÁRIOS!!!! PEGUEI VOCÊS!!! - grita de deboche, o arteiro Mané Catota que se levanta e sai correndo desembestado.
- 'FI' DA PESTE!!! MENINO SAFADO!!! 'CABRA' DE PEIA!!! - possesso, grita Seu Magrilento.
- GRRRRR!!! EU VOU TE PEGAR, SAFADO!!! - berra enlouquecido, Zé Bestafera.
Seu Magrilento segura Zé Bestafera e lhe dá uns tapas.
- 'CABRA' DE PEIA!!! VOCÊS DOIS NÃO TÊM O QUE FAZER NÃO!!! SAFADOS!!! EU VOU ARRANCAR SUAS 'ZURÊIA'!!!
- AI, AI, AI !!! NUM FUI EU NÃO!!! ELE ME ENGANOU!!! AI, AI, AI !!!
Risos e mais risos de Mané Catota, assistindo de longe, atrepado no muro da casa abandonada de Dona Sebosina, já falecida.

EternizArte
Henrique Palhares
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Amante das letras que me dá sonhos!

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