[ editar artigo]

No início...

No início...

No início, era a ordem. Plena, total, soberana, sóbria. Havia consciência, mas não havia o que ver. Era tudo, nada mais havia que não fosse.

 

Queria saber como era ver.

 

- Você sabe que vai sofrer.

- Sei. E quero ainda assim.

- Vai sentir coisas que nem imagina. Vai se sentir só. Vai ter dificuldade em falar até consigo mesmo.

- É não saber o que o outro quer dizer.

- Outro?

- É. O que não é você.

- Mas eu sou tudo.

- Mas não vai mais ser.

- Como assim?

- Vai ser uma coisa de cada vez, só que ao mesmo tempo.

- E assim, a solidão passa?

- Não. Quer dizer... Sim. Mas não.

- Eu preciso saber.

- Você não vai ser capaz entender o que cada você pensa. Vai haver conflitos. Guerras, dor, descaso. Mal entendidos.

- A nossa capacidade de entender e sentir vai ser fracionada em incontáveis partes.

- E no fim das contas, cada parte é sozinha.

- Mesmo que existam outras.

- É sozinha em si, porque não é capaz de entender, de se conectar, com as outras, pelo menos não completamente.

- Na verdade, nem consigo às vezes.

- É.

- ...

- ... é.

 

- É isso.

- É isso então.

- Você vai?

- Nós vamos.

- Mesmo com a dor?

- Mesmo.

- Mesmo com a ignorância?

- É ela que quero. Quero ser ignorante o suficiente para não sentir solidão, não ser capaz de perceber que sou um todo sozinho, para viver na fantasia de poder saná-la com uma outra pequena fração de eu.

- Você sabe que é apenas uma fantasia.

- Nós sabemos. Mas é o que eu tenho.

 

- E o despropósito?

- Não muda, mas assombrará ao invés de apenas existir.

(...)

- E o tédio?

- Esse talvez mude. Mas até que se perceba o despropósito, novamente.

 

- Nós vamos.

EternizArte
Ler conteúdo completo
Indicados para você