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Nas águas e à luz do luar

Nas águas e à luz do luar

Olá, chamo-me Maria Alzira.
Se está lendo esta carta é porque já não estou mais entre vocês. Pedi à minha família que divulgasse o conteúdo aqui escrito, assim que eu partisse, pois não queria levar este segredo para onde vou.

Lembro-me como se fosse ontem. 
O ano era 1884, eu havia completado 18 anos. Belém Novo era uma vila de pescadores muito pacata. Havia um porto e uma igreja e nada mais, apenas matas e o rio Guaíba. 

Eu costumava andar por tudo e me aventurar nas pescarias da família, sempre ajudando a trazer peixes para nossas refeições, assim como vendê-los aos demais bairros da cidade. 

Em uma noite de verão não consegui adormecer. Havia muitos mosquitos e meus pensamentos estavam fervorosos. Por esse motivo, sai de casa para caminhar ao longo do Guaíba. Não foi preciso levar o lampião, pois a lua estava tão bela que iluminava toda a nossa vila, assim como as águas que banhavam o bairro.

Cheguei as margens. Meus pés estavam descalços. Fiquei alguns instantes olhando para o reflexo da lua nas águas. Pouco tempo depois ouvi alguma coisa saindo do Guaíba, do outro lado de onde eu me encontrava. Pensei ser algum pescador, porém eram três horas da madrugada e estavam todos dormindo. Então fui verificar mais de perto. Olhei por detrás de um arbusto e lá do outro lado pude ver que em cima das pedras se encontrava uma estranha criatura. No momento não pude pensar em mais nada. Paralisei e fiquei ali observando. 

Aquele ser tinha formato humanoide e era claramente uma mulher, mas não uma mulher qualquer. 
Seu rosto era belo. Olhos, nariz e boca bem definidos. O corpo apresentava uma silhueta agradável. No entanto, sua pele era tal como a de um sapo, tonalidade marrom escura, brilhava a luz do luar. Estava nua, contudo suas partes íntimas eram escondidas por placas como as que vemos nos jacarés.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi ver que de sua cabeça saiam longos tentáculos. Eram oito no total, eles não paravam de se mover. Ficavam assim de forma suave e simétrica, desciam até os pés. Das costas saiam mais dois que eram diferentes dos outros: extremamente longos. Tanto é que nem se quer saiam da água. 

Naquele momento, não conseguia tirar os olhos da criatura. Perguntava-me: "será isso verdade? Enlouqueci ou não acordei ainda e seria apenas um sonho?"
Enquanto me indagava e respirava de forma arrítmica, aquele ser ficou ali parada olhando para a lua. Depois voltou a atenção para a vila dos pescadores. Permaneceu assim por alguns instantes. Após isso, virou a cabeça de forma tênue e olhou, diretamente, em meu rosto.

Cai para trás enfiando meus pés no barro. Aquele olhar fixo me apresentava seus olhos, belos olhos, na coloração alaranjada. Uma terceira pálpebra os varreu. Assim ficou e logo após pulou para dentro das águas, sumindo tão subitamente quanto surgiu. Na época não acreditaram no meu relato, já que nunca viram tal criatura. Decidi não levar mais o assunto a ninguém, pelo menos ninguém do meu tempo.

Tenho que partir. Deixo aqui esta carta.

Muito cuidado, meus netos, ao entrarem nas águas que cercam nosso bairro. Haverá lá uma sereia? Monstro? Anjo? Demônio? Ou apenas a imaginação?
Parto sem saber...

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