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NÃO CANTO VERSOS PARA...

NÃO CANTO VERSOS PARA...

 

Não canto versos para que umedeças teus olhos.

Eu os canto para que sintas teus pés pisarem o chão.

A mim foi dado este fado, assim o quero e faço.

 

Daí eu não cantar versos de enfado

ante o cheiro dos mendigos,

pois sei que por trás de cada olhar

que pede, bate um coração enjoado

de bater num corpo que simplesmente

se agarra ao que lhe resta em vida.

Daí eu bater papo com os violentos,

e não temê-los , pois consigo enxergar

em seus olhos o medo que sentem

de mostrar quem realmente são.

– A ti, pregado aos espólios sucessivos,

canto versos à minha e à tua redenção!

 

Não canto belos versos de unificação

pois, apesar dos membros arrancados,

a espécie é mantenedora da união.

É de se aceitar ser mesmo difícil

navegar pelo oceano da unidade

mas, apensar de todos os cacos de cultura,

fragmentos de tempo cristalizado,

rugosidades do espaço habitado,

prático-inerte, trabalho morto,

ou chame como quiser,

ainda hão de ter quebradas as pernas

aqueles que olvidam e vivem de virar

as costas para os ecos, cores e odores

do passado ainda presente.

 

Não canto versos para mudar o curso

que segue a enchente. Sei que o homem que

bebe na fonte  é o mesmo que causa danos

às águas em seu percurso. Não choro as perdas,

nem penso saber, apenas sinto, daí que eu sei

que a mesma água, fonte da vida, é capaz de afogar,

e deixar com sede aquele a deriva no mar.

– Excesso de água, tanto quanto a falta dela,

também causa enormes danos.

 

Não canto isso nem canto aquilo em versos

para que simplesmente lhe agrade os sentidos.

Não canto versos para mimar o ego,

os canto para sair de mim mesmo,

e ir até você, quem sabe;

só mesmo para sentir o gosto,

só para saber o que há do outro lado,

e enxergar a mim mesmo com outros olhos.

 

 

 

                                                                        31 Mar. / 20 Jun. 2019

 

Ps. curte o outro poema: <https://eternizarte.org/blog/substantivacao

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Luis Sátiro
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Luis Sátiro do Nascimento é natural de Teresina-Pi. Professor de Geografia, poeta em constante processo de autoformação ainda pouco publicado – participa da Antologia Poética Poésis 2019, com o Poema De um momento na tia do café (Vivara Editora 2019)

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