[ editar artigo]

MÁQUINA DE FAZER DOIDOS

MÁQUINA DE FAZER DOIDOS

MÁQUINA DE FAZER DOIDOS

Olá amiguinhos, tenho certeza de que, como eu, tendes parafusos a menos. A culpa não é vossa; é d’este mundo cão. Há certo método nas engrenagens do sistema que nos esmaga feito cana na moenda. Todo o tempo algo nos põe para baixo por não sermos melhores, maiores ou mais. E fingimos acreditar que precisamos do que não precisamos… Ou precisamos? Temos um sistema incrível que remunera muito bem os inovadores, ainda que sejam só promessas de sucesso: “No mundo, o que não muda é a mudança.” — diria Heráclito se por minha boca afrolusoamericana… — onde a contínua transformação das pessoas e das coisas se oferece ao olhar.

Em oposição ao dinamismo dramático que experienciamos em nossas vidas, toda tentativa de descrição d’um mundo melhor descamba n’alguma forma de utopia pessoal ou paraíso sobrenatural que se caracterizem pela solução definitiva de problemas coletivo como a desigualdade social, em particular, as diferenças humana, em geral. Repare-se que em contraste com o mundo real, o mundo melhor desejado, n’esse plano existencial ou n’outros, é estático e estável: Cada coisa tem o seu lugar e toda a ordem estabelecida espelha alguma desordem inerente à realidade. No céu judaico-cristão, por exemplo, não consta haver pobres e ricos, servos e servidos, árabes e hebreus… Apenas bem-aventurados, i.e., pessoas que se mantêm em amizade com Deus.

Por essas e outras, todos os bem-aventurados seriam amigos entre si e suas diferenças foram sublimadas pela Graça Divina. N’essa comunidade de eleitos, não haverá conflitos e todos são felizes pelos séculos dos séculos como se eternos anjos imberbes e de púbis liso. Embora filósofos e teólogos de grande erudição tenham deixado profundos escritos tentando fazer sonhos como os descritos pelas religiões fazerem sentido, o facto é que suas descrições de mundo melhor a espelhar o sobrenatural se apresentam, por via de regra, como uma realidade acabada sem interferência humana, logo, não histórica. Não há progresso nem evolução nem transformação ou coisa parecida no mundo melhor, apenas a perfeição que brotou pronta e acabada do Verbo Divino.

O mundo em que vivemos, por outro lado, parece se furtar a qualquer tentativa de estabilidade. Religiosos ou não, todos admitimos viver n’uma realidade hostil e complexa. Viver em coletividade nos obriga a um eterno debate sobre o que é tolerável e o que não é. Tolerável, não certo absoluto! Estabelecer regras mutáveis para a vida em sociedade expressa justamente o que as pessoas que integram aquela sociedade são capazes de tolerar ao interagirem. Submeter-se ao Pacto Social é uma tarefa tão difícil que não poucos optam pela marginalidade, pela clandestinidade ou mesmo pela misantropia. Sim, são indivíduos que não conseguem se adaptar à máquina do mundo e suas regras civilizatórias — isto sem qualquer juízo de valor sobre as referidas regras — colocando-se em franca oposição ao mundo que o cerca e as sociedades que o habitam. Não obstante, a grande maioria das pessoas aceita (conscientemente ou não) as regras do trato social e se civilizam para existirem submissos à ordem coletiva. N’outras palavras, “aceitam o Universo”, como ironizou Aldous Huxlei em CONTRAPONTO. Ou ao menos tentam aceitar esse Universo que se move indiferente à vontade do indivíduo e mesmo contra este. A máquina do mundo gira sem se importar em como nos sentimos enquanto pressionados por suas engrenagens. É por essas e outras que a Educação tem sido, em última análise, não um processo para o desenvolvimento de consciências, mas sim para a aquisição habilidades úteis.

Isto posto, observemos o humano contemporâneo: Serzinho minúsculo em face d’um Universo imenso, cada indivíduo é treinado desde a primeira infância para se integrar ao sistema que tem permitido a existência — não sem grandes tragédias aqui e ali — de sete a oito bilhões de serzinhos semelhantes. Para ingressar na máquina do mundo, o indivíduo aprende a se comunicar e a resolver problemas acerca de suas demandas básicas existenciais — habitar, comer, beber, ter prazer sexual, confraternizar… Somente definidas as necessidades do indivíduo é que este passa a buscar uma actividade que lhe permita obter o que precisa para viver em conformidade com as regras estabelecidas pela coletividade. Ou seja, trabalha para viver, não o contrário. Depois de milênios onde essa questão era sequer colocada em função da urgência de se sobreviver com tecnologias muito limitadas a demandar antes braços do que cérebros, vivemos um tempo no qual todos somos estimulados por associações neurológicas — quer químicas; quer psíquicas — a oferecermos o máximo possível de nós para o sistema que permitiu o superpovoamento do Planeta. Sistema esse que se caracteriza pela superprodutividade demandada pela compulsão de objetos de desejo. Em última análise, ser humano é ser consumidor, ou melhor, ser alguém que, se acaso não consome, sente-se como se não existisse de facto.

A tese que se defende no presente texto é de que essa ansiedade a qual o indivíduo é continuamente submetido para consumir mais e mais faça d’ele um eterno insatisfeito consigo mesmo e com sua vida. Por quê? Por causa da contínua promessa de prazer e felicidade oferecida pelo sistema que associa ao conforto material a importância existencial do humano contemporâneo. Promessa essa eternamente adiada. Nos poucos pódios do mundo, a Máquina de Fazer Doidos oferece vencedores diariamente para o aplauso da massa e o vexame dos que não chegaram sequer perto de se destacar. Os perdedores, aqueles que ninguém quer ser, são a maioria. Há poucos lugares no topo e esses têm a visibilidade que dá credibilidade ao discurso continuamente oferecido aos ansiosos da sociedade de consumo: Uma vida que vale a pena viver é aquela que os vencedores vivem… Viagens em primeira classe, hotéis cinco estrelas, jatinhos particulares, carros esportivos, a companhia de mulheres belíssimas, vida noturna agitada, descanso em praias paradisíacas… Sim, o prêmio dos deuses aos primeiros lugares do pódio.

O problema, no final das contas, é que a loucura pandêmica com a qual lidamos todos os dias advém do ódio à pobreza que a Máquina introduz em nossas mentes n’uma hipnose contínua. Tudo ao redor parece nos dizer que não ter dinheiro é inadmissível. Ninguém será interessante se não apresentar a todos os objetos de desejo que expressem o sucesso dos vencedores. Não importa o quanto sua arte, ciência ou filosofia sejam profundas, o que vale é o preço de venda. Poetas vendem por tuta-e-meia textos que os leitores só admitem ler de graça. A conta não fecha. Logo, poetas são alternativos a esse mundo de barganhas enquanto eternos miseráveis da arte; da literatura. A Máquina despreza miseráveis. Quem não aprende um meio de fazer dinheiro torna-se invisível. De resto, o pobre perdedor passa a ter ódio de si mesmo, n’uma cobrança depressiva que activa o mecanismo de autodestruição do indivíduo. Círculo vicioso: Álcool, drogas e promiscuidade não por diversão, antes por lento suicídio. A Máquina de Fazer Doidos, a máquina do mundo, engatilha em nossas mentes a ideia de que se não somos vencedores, não somos nada. Forçoso lutar todos os dias contra esse estado de coisas e se aceitar. Sem aceitação de si e suas eventuais limitações, derrotas ou confusões, a máquina do mundo assume a nossa cabeça e nos conduz para o profundo desprezo pela vida e insatisfação consigo mesmo.

É preciso desligar o mecanismo de autodepreciação.

É preciso criar pelo prazer de compartilhar.

É preciso valorizar o que não tem preço.

É isso.

Betim — 17 06 2020

EternizArte
Ricardo CUNHA
Ricardo CUNHA Seguir

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar. https://medium.com/@arqt.ricardoc

Ler conteúdo completo
Indicados para você