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Lamento duma lágrima suspensa... ou a menina que não queria nascer

Lamento duma lágrima suspensa... ou a 
menina que não queria nascer

 

 

Mãe, já terás percebido, que não quero nascer?

Para viver e quase em seguida morrer

Será que entendeste por fim o meu silêncio

De pausas; sem pontapés nem outros movimentos

Que mau presságio, que estranho artifício

Esta inércia planeada, sem reservas nem constrangimentos

Que te inquieta, e dói como um pesadelo de mãe

Vivo ou da morte refém.

 

Sossega que eu vivo na penumbra do teu ventre

E sinto e respiro como tu, certamente

Eu só te queria chamar a atenção

Para esta tempestade, esta grande maldição

Que vislumbro pela transparência do teu ser

Sim, porque eu consigo entrever

E descortinar o que nem sequer ousava imaginar

Homens sem força, contidos, escondidos,

E esta peste no ar

 

Da China veio um tufão,

E um outro vento louco, sirocco

A oeste se juntou, em turbilhão,

Como uma nuvem de fogo

Indiferente ao pavor da multidão

Sequiosa, sem fronteiras nem destino

Espalhou-se na escuridão

Com a perfídia dum veneno clandestino.

 

Esta sombra de morte que anoitece o dia

Como um feitiço, uma assombrosa magia

Tem requintes de malvadez e crueldade

Invisível, trespassa-nos em qualquer idade

E nada podemos fazer para a deter

Pois é um inimigo desigual, difícil de combater

Acreditamos porém que a forçada solidão

Seja uma força credível e quiçá a salvação

 

Por isso mãezinha querida, deixa-me estar no teu nimbo

No conforto em que me encontro, neste oásis de frescura

Algumas semanas mais, eu prometo, te darei toda a ternura

Deixa a tempestade passar, os miasmas deste ar, a escuridão, o cacimbo

Quero nascer para ver o sol, o céu, o mar,  e o poisar das borboletas

De flor em flor

Ao teu lado no jardim

À sombra de tamarindos, numa pérgola de marfim.

Não me expulses por favor.

 

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