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Crônicas do "Bananil" verde e amarelo

Crônicas do "Bananil" verde e amarelo
 

Caxacério e Sacripantódio estavam conversando:
- Escute, meu caro, a "esquerda política" se caracteriza como grupos de pessoas que pensam em modificar as estruturas da sociedade, pois entendem que há grupos de poder que pretendem se manter no poder sem questionamentos ou com limitados questionamentos. - falou Caxacério.
- Sei... Quero entender melhor.
- Portanto, os grupos de poder tradicionais - a direita política - se caracterizam por alimentarem práticas e discursos, ideias, que não admitem mudanças nos seus costumes e, claro, que possam ameaçar suas posições ou status na sociedade. Eles apoiam "valores" tradicionais, como casamento, práticas religiosas, comportamentos sociais que os privilegiam, e negam, assim, que outros grupos fora de seus "padrões" possam, pelo menos, questionar tais coisas.
- Sei bem o que é isso. Meu pai era autoritário. Tornei-me um questionador e apanhei um bocado dele. É triste... Mas passei a evitar algumas situações para não entrar em conflitos. O tempo passou e ele continua inflexível! Eu sou diferente dele, sabe? Procuro ouvir os outros.
- Eu também. Contudo, minha paciência é pouca para os reacionários, não posso mentir! Sei que é difícil conversar com esse tipo de gente.
- Pois é. Por exemplo, os nossos vizinhos: Hevanjegue e Evandiota. Meu Deus! Que povinho cabeça dura!
- Meu velho, esses dois aí vivem querendo me converter a pulso! Sei que bebo bastante, contudo não será a igreja A ou B que vai me curar. Aliás, não desejo me curar da bebedeira! Rá-rá-rá!
- Rapaz, nem eu! Adoro tomar umas também! Mas, voltando ao assunto, Hevanjegue e Evandiota são demais mesmo! Eles defendem matar bandidos e não queriam o aborto daquela criança de dez anos, vítima de estupro! Como podem?! É impressionante! Diziam que o PT queria impor nas escolas um kit gay pra ensinar às crianças desde pequenininhas a serem gays, lésbicas e travestis. Meu amigo... Não tem quem aguente uma conversa da peste dessa, não! - falou Sacripantódio enquanto abria e servia mais cerveja para ambos.
- E mais, meu caro. Hevanjegue me disse que os filhos dele receberam uma mamadeira de piroca na escola! Rá-rá-rá! Meu caro amigo, eu ri demais! Risos. O "cabra" é maluco mesmo! Risos. - Caxacério ri tanto que fica vermelho que só tomate maduro e sua bastante também.
- Rê-rê-rê... E aí o que foi que você disse àquele abestalhado? Fala, homem!
- Rapaaaiz! Eu disse que era mentira dele!
- Foi não?! Homem, tu é doido?! Ele ficou "retado", doido, espumando que só cachorro doido! Rapaaaiz!
- Oxi! Tu acha que eu não disse, não?! Diiiiisse na lata! Na cara feia dele! Ele engoliu seco, ficou batendo as pestanas e repetiu que sim! Que o filho não estava mentindo não! Oxi! Eu não quis nem saber... Disse que era "conversa". Que aquilo era uma invenção pra me converter. - Caxacério começa a rir de novo.
Sacripantódio ri também. Bebem mais uns goles de cerveja.
Sem esperarem, passam Hevanjegue e Evandiota bem próximo da mesa onde os amigos conversavam, pois a calçada é estreita e a rua é bem movimentada pelos carros. As mesas e cadeiras do bar de Caxacério ficavam espalhadas ao longo de parte da calçada.
- Paz do Senhor, irmãos! Estão bem alegres! Posso saber o que deixa tão felizes? - disse Evandiota com um olhar curioso e desconfiado.
- Estávamos falando de mamadeira de piroca e kit gay, vejam só! - respondeu a sorrir, Sacripantódio.
- O queeeee ???? Que conversa dos diabos! Jesus que me perdoe! - espantou-se Hevanjegue.
- Oxi?! Nada de espanto, "irmão". Estávamos falando de vocês e das suas ideias toscas, só isso. - falou Caxacério olhando para as unhas de sua mão direita e com um sorriso de canto de boca.
- O senhor deveria ter vergonha! Nós somos homens de Deus! Toscas são suas almas, seus porcos! - exaltou-se Hevanjegue.
- Sim, sim... Diga mais, "irmãos em Cristo". Sou todo ouvidos! Sem dúvidas que sou um porco. Adoro viver no chiqueiro do mundo! Afinal, quem vai julgar, senão o Todo Poderoso? Ou, quem sabe, a Toda Poderosa? Ou apenas vocês? E acho que não existe esse negócio de Deus, sabiam?! Pra mim isso é invenção de pessoas nojentas iguais a vocês, seus ratos! - com um tom baixo de voz, mas ameaçador, falou Caxacério.
- Rato é você, seu amaldiçoado dos infernos! - respondeu colérico Evandiota.
- Sim! Você é um desgraçado dos diabos! - completou Hevanjegue.
- Rapazes, rapazes... Calma! Vamos baixar o fogo. Vejam só, meus amigos, estamos aqui a conversar apenas.... - falou meio tenso, Sacripantódio, enquanto coçava a cabeça e equilibrava o boné azul celeste e branco do CSA - clube de futebol de sua paixão - pendendo, quase caindo.
- Foi este amaldiçoado que faltou com respeito com a gente e com nosso Deus! - respondeu brabo, Evandiota.
- Isso mesmo! Onde já se viu uma blasfêmia dessas: dizer que Deus é uma mulher? E que Ele não existe? Na minha vista, NÃO!!! - esbravejou Hevanjegue com o braço erguido a segurar uma Bíblia, suado e roxo de ódio.
- Já! Jáaaa!!! Vamos nos acalmar e vocês vão passando que será melhor, que-ri-dos ir-mã-os, ceeeerto? - com os olhos apertados e uma fala mansa e pausada, falou Caxacério.
- Hunf! Sim, sim... Vamos embora, sim! Mas, ouça bem, ir-mã-o em pecado, o senhor tome cuidado com o que fala por aí! - com os dentes à mostra e os lábios contraídos para dentro, bufando de raiva, disse Hevanjegue, ao tempo que baixou lentamente o braço com o livro sagrado.
- Bem, vamos esfriar a cabeça! Por favor, gente boa, vamos cuidar da vida, né?! - disse Sacripantódio ora de pé a gesticular mostrando o caminho para casa aos religiosos.
- Vamos embora, irmão! - falou Evandiota, com voz firme e olhar irritado.
- Sim, "bora", irmão! Vamos! - completou Hevanjegue meio trêmulo ainda.
Ambos saíram apressados sob os olhares curiosos dos transeuntes e fregueses do bar.
- Ufa! Que bom que essas pragas se foram! Vão pra casa da peste, bestas feras! - falou aliviado Sacripantódio a encher o copo e beber a cerveja com gosto.
- Não digo a você, meu caro... É assim. Paciência... Mas... Vamos continuar nossa conversa. - falou Caxacério enquanto abria mais uma garrafa e servia ambos.

EternizArte
Henrique Palhares
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Amante das letras que me dá sonhos!

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