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A 'proposta' política - Crônicas do Bananil

 

Caxacério estava conversando com Sonsonaldo:
- Cheguei numa mulher ali e disse 'oi'. - falou Caxacério.
- Sim. E ela disse o quê? - perguntou Sonsonaldo.
- Ela me olhou e virou o rosto. Aí eu disse 'oi' de novo e perguntei qual era o nome dela.
- Sim. Ela respondeu?
- Ela me ignorou. Aí eu falei: criatura, acho que esse é o seu nome. Acertei? Talvez seja 'chata e bem vestida', acertei, que-ri-da?
- Rapaz?! E aí? - sorrindo, curioso, Sonsonaldo indagou.
- Ela sorriu e disse o nome. Aí eu perguntei se ela gostava de vinho. Ela disse que sim. Mas eu disse que não bebia de jeito nenhum!
Risos. Sonsonaldo faz um gesto negativo com a cabeça.
- Logo tu?! Que não bebe?! - ele emendou, rindo.
- Aí eu completei, enquanto ela estava sorrindo, que não bebia de jeito nenhum sozinho. Mas acompanhado... Ela riu e me perguntou qual era meu nome. Eu respondi. Perguntei em que ela trabalhava. Ela me disse que tinha uma loja de roupas. Aí ela me perguntou: e você?
- Quer ver...
- Eu disse que era traficante de drogas e cafetão, que já fui assassino de aluguel e já tinha matado um cento de 'cabras de peia' por aí...
Risos. Sonsonaldo quase se engasga com a cerveja.
- Tu não disse isso não, 'fi' da peste! Risos e mais risos.
- Disse não o quê?! E disse mais: que eu era também traficante de armas pesadas e proibidas. Perguntei se ela não tinha interesse em adquirir umas. Se ela não estava precisando de matar algum otário sem vergonha que, por acaso, estivesse atrapalhando os negócios dela.
- RÁ-RÁ-RÁ... Ela deve ter rido que só olhando pra essa tua cara feia e debochada, hein?!
Ela ficou rindo e eu perguntei porque ela estava rindo tanto. - com um sorriso no canto da boca, Caxacério falou.
- Êita, que 'resenha' da porra! Risos.
- A gente só faz o que pode, né?!
Ambos tomaram uns goles de cerveja.
- Essas 'resenhas' tuas, 'Caxa', são demais! Sim, homem, e a campanha? Não vai ser candidato não? Você não disse que 'ia' sair? O que foi que houve? 'Abriu' por quê?
- Cadê isso aqui? - gesticulando a indicar dinheiro. - Você sabe que sem dinheiro não dá!
- Rapaz, não é só dinheiro não. Você conhece tanta gente. O povo adora essas histórias que tu conta... Se eu fosse você, eu 'meteria a cara'!  Vê o que 'ia' sair...
- Você 'ia' ser o primeiro a não votar. Ou eu 'tô' mentindo? Você vai deixar sua 'boquinha' lá com o deputado?!
- Não, não... Não é assim não, meu 'véio'. As coisas são conversadas primeiro... Você sabe! - tomou uns goles, Sonsonaldo.
- Sim, eu sei... Engana que eu gosto.
- Meu irmão, não 'se' lembra de Enrolândio Sabidão? Ele começou sem nada! De baixo. E foi vereador, prefeito, governador do Estado, é deputado federal... Quem sabe você não seria o próximo?
- 'Hôme', deixe de conversa! Se eu sair candidato a prefeito vou perder feio! Mas, se o atual prefeito me indicasse, ou um deputado ou senador daqui me apoiasse 'pesado'! - fazendo gesto indicativo de dinheiro, falou Caxacério.
- Não é bem assim não!
- Você é muito sabido, mas gosta de teimar sem razão! Por exemplo, vamos lá, quem era, aos 22 anos, o atual prefeito de Salvador? Era um jovem que cursava Direito igual a outros por aí. A fundamental diferença era que ele tinha um avô senador da República, ex governador da Bahia, dono do principal jornal do Estado... Sem falar que esse velho tinha o apoio de centenas de prefeitos. Aí ele indica o neto e pronto!
- Sim, e por que os filhos do senador daqui de Alagoas que já foi governador e presidente não elegeu os filhos?
- Tá, entendi. Mas, para mim, o que faltou foi dinheiro mesmo! E sempre há um risco de se perder porque há outros nomes fortes em disputa. Contudo, com o poder do dinheiro as coisas são muito mais fáceis!
- Ah, então... Eu estou certo.
- Bicho! Tu é teimoso que só a peste! Qualquer um de nós aqui com bastante grana e o apoio dessas autoridades aí, teríamos grandes chances de vencer!
- Tá, homem! Deixa pra lá!
Respirou fundo, Sonsonaldo e tomou um gole de cerveja.
Ligeirino chegou.
- E aí, criatura? Como foi a reunião? - perguntou Caxacério a Ligeirino.
- Disseram que vão nos indenizar com um valor de oitenta por cento do valor da casa. Sei não! Acho que vou ficar lá assim mesmo.
- Rapaz, não é melhor pensar mais, não?
- Sei não, 'Caxa'! Não vou mentir...
- Esfrie a cabeça primeiro. Tome uma cerveja. Se quiser vá pra casa. Eu chamo uma pessoa por hoje, amanhã...
- Eu sei, meu irmão. Mas vou trabalhar. Tem tempo ainda. Eles não deram um prazo não.
- Tá certo, então.
- É a questão lá do Pinheiro, 'Ligeiro'?
- É.
- Sei... 
Ligeirino se levantou e foi trabalhar.
- Você escutou a conversa. O que acha? - falou Caxacério.
- Rapaz, 'é' tanta conversa! Mas não sei se aceitaria não.
- Huuuuummmm...
- Você aceitaria?
- Sim! Sim! Acho que é melhor aceitar o dinheiro. Comprar outra casa... Enfim, uma nova vida...
- É. Tem isso também... Recomeçar de qualquer jeito.
Tomaram mais um copo de cerveja.
- Imaginar que três bairros correm o risco de afundar... Meu Deus! Que negócio da gota! - diz Sonsonaldo, pensativo e meio nervoso.
- É isso... "Quando o 'cão' não vem, manda o secretário"!
- É triste... Cruel com os pobres!
- Como sempre. Quando foi diferente? O que estávamos conversando antes se relaciona com isso. A grande empresa que retirou o salgema e deixou apenas os buracos no subsolo dos bairros do Pinheiro, Mutange e Bebedouro, e agora quis tirar o 'corpo fora' e deixar os moradores à própria sorte é a mesma que financia as campanhas eleitorais de vários governos desta cidade e deste Estado. É ou não é?
- É verdade, 'Caxa'.
- Só os burros, os cavalos, os cabeças de prego, que não entendem isso. A ignorância é a 'mulesta'!
De súbito, aparece Piadilza.
- Olá, rapazes! - fala a mulher.
- Oi! Que milagre! - diz Caxacério.
- Opa, Piadilza! - cumprimenta Sonsonaldo.
- Eu sou candidata a vereadora fiquem sabendo!
- Oxi?! É não! - Sonsonaldo se assusta.
- É sério, 'mulé'?
- É sim! E vim aqui conversar com vocês.
- Sim... Diga sua proposta... - diz Sonsonaldo meio sem graça.
- Pois bem! Vim tomar umas cervejas primeiro, nem convidam. Vixe! Já não se fazem homens como antigamente!
- Sei... 'Ligeiro'! Ô 'Ligeiro'! Traz uma cerveja bem gelada! - chama Caxacério.
- Minha proposta é que vocês virem em mim pra vê se eu ganho. Se ganhar, aí beleza!
- Sim... Essa é a proposta é? - falou Sonsonaldo.
- É! - ela afirma e sorri de forma debochada.
- Oxi?! - diz Caxacério, meio sem entender.
Sonsonaldo franze a testa.
- Sou candidata.
- Sim. Você já disse. - afirma Sonsonaldo.
- Quero ser vereadora. E só. Não vou fazer nada pra ninguém. Só quero o status e o dinheiro é claro.
- Rá-rá-rá! Que 'resenha'! - risos de Caxacério.
- Esse é o espírito, homens! - diz Piadilza.
- Rê-rê-rê! Que 'zona'! - sorri o outro.
- Minha campanha é essa aí! Entenderam?
- Entendi... - diz Caxacério.
Ligeirino chega com a bebida e os copos.
- 'Ligeiro', quero seu voto pra vereadora! - diz ela com um sorriso cínico.
- Oxi?! 'Tu' é candidata? - Ligeirino pergunta.
- Isso mesmo! 'Tá' comigo ou não 'tá'?!
- Certo, 'mulé'. Eu tô!
- Deixe eu contar uma história que meu amigo me contou ali. Eu ri que só a peste! - falou Piadilza.
- Mulher, não é a história do senador que enfiou o dinheiro no rabo não, né? Rapaz, que 'boba' foi aquilo?! - diz Caxacério.
- RÁAA-RÁ-RÁ!!! Que presepada foi aquela, hein?! Que 'cabra' safado! Merece é cadeia mesmo e uma pisa da peste! - diz rindo Piadilza.

EternizArte
Henrique Palhares
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Amante das letras que me dá sonhos!

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