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A MÚSICA QUE TOCA

A MÚSICA QUE TOCA

A MÚSICA QUE TOCA

Atravessa a noite uma música que não escutava há muitos anos. Vem da escuridão, longe. Talvez um baile em fim de festa tocando a saideira ou uma banda voltando ao palco para bisar. Não sei. A voz ecoava pela cidade e eu me lembrei do tempo em que aquela música fazia parte de minha vida.

Estremeci. Olhei pela janela tentando localizar d'onde vinha o som. Distinguia vozes e guitarras. Havia acordado d'um sono pesado, no meio da noite, e mal conseguia entender aquele transporte para um passado tão distante. N'uma vida passada, dir-se-ia. Súbito, rostos de amigos surgiam na memória. Nomes e lugares perdidos puxados feito um fio de lembranças encadeadas. Enquanto isso, a melodia se desenrolava a ponto d'eu lhe acompanhar o refrão como se guardado n'algum recôndito da mente. Eu cantei e percebi o passado tão presente como se não houvesse passado. Eram duas da manhã e eu tinha vinte anos novamente.

Olhei para a cama e estava vazia. Não havia ninguém que pudesse me dissuadir d'aquele encantamento que a música impunha. D'algum modo misterioso, eu me sentia jovem e crédulo como fora um dia, ou melhor, n'uma noite como aquela. As ruas vazias e escuras da cidade tinham o cheiro d'antanho e eu olhava sozinho pela janela vendo as sombras quietas das casas escuras. A música vinha do Centro, onde a cidade permanecia iluminada em contraste com a periferia silenciosa. Eu me lembrava de como eu era e cantava a música que eu cantava então. Era bom voltar a ser esperançoso e tranquilo diante da vida. "Por que não?"-- eu repetia repetindo a música que terminava interrogando-me. Logo, tudo era silêncio e noite. Eu voltei a ter a idade que tinha. 
Eu me senti ainda mais sozinho lembrando do rapaz que escutava aquela música e tinha tanta esperança. "Por que não"  eu repetia tentando evocar a fé que perdera na vida. "Por que não" -- respondia o eco. Olhei para as minhas mãos. Eram mãos de velho. 

Rejeição. Eu não sou tão amável. Eu não sou tão interessante. Eu não sou tão bonito. Eu não sou insubstituível. Eu não sou mais o seu amor. O amor d'ela, obviamente. Tudo isso, no final das contas, é sobre rejeição. Estou ficando velho e isso me assusta. Meu cabelo raleia em minha testa enquanto espero mensagens que não vêm. Sim, estou no quarto sozinho e não há música mais. Todavia, o verso continua em mim, vibrando: "Por que não?". Olho para a noite e tento encontrar o lugar d'onde a música vinha há pouco, mas nada... As luzes da cidade pulsavam em meus olhos míopes dando a todas as coisas um contorno vago. Meus lábios balbuciavam "Por que não?" ...  "Por que não?" ... 

Eu preciso dormir. Eu preciso voltar para a cama e tentar dormir. No entanto, do silêncio da noite o refrão parecia continuar sem fim, vibrando nas luzes dos postes e prédios distantes. A frase deveria me animar, eu acho. Mas, não. Na verdade, ALEGRIA, ALEGRIA parecia vir d'um tempo, não d'um lugar. Estava feliz e confuso por aquele refrão me transportar para alguém que fui. Ao menos a memória se impunha e eu entendia a força d'aquela música tocando, física, como se meu peito fosse uma caixa de ressonância onde ela continuasse a vibrar, silenciosa.  "Por que não?" ...  já não era algo verbal. Era uma vibração em meu peito. 

Eu voltei para cama e tentei dormir. Eu precisava. 

Betim - 06 09 2020

 

EternizArte
Ricardo CUNHA
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Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar. https://medium.com/@arqt.ricardoc

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